Oferta de crédito cria atrito entre governo e bancos

Ocrédito é o mais novo ponto de atrito entre o governo e o setor financeiro. O governo acusa os bancos de terem reduzido a oferta de recursos e estarem cobrando caro pelo dinheiro, o que retarda a expansão da economia. Já os bancos alegam que o aumento da inadimplência recomenda cautela e que os próprios clientes estão retraídos. A temperatura subiu na semana passada quando, ao analisar o impacto da redução da taxa básica de juros na oferta de crédito, relatório da Federação das Associações de Bancos (Febraban) citou antigo ditado que diz que "você pode levar um cavalo até a beira do rio, mas não conseguirá obrigá-lo a beber água".

Ampla reportagem realizada pelo Valor mostra que os dois lados têm razão. A demanda por crédito diminuiu efetivamente depois da vigorosa expansão dos últimos anos. Do outro lado, os bancos reduziram a oferta de recursos, preocupados com o aumento da inadimplência e com a redução da capacidade de endividamento das pessoas.

Em algumas linhas isso é mais evidente, como o financiamento de veículos, que cresceu muito nos últimos anos, chegando a um estoque de R$ 177,4 bilhões em março. Foram maciços os financiamentos em 2009 e 2010, quando o governo reduziu o IPI dos automóveis para estimular a economia. Os bancos chegaram a dispensar a entrada e a oferecer crédito por até 72 meses. A volta ao normal do IPI vários meses depois reduziu a demanda. Quem aproveitou a onda e comprou um carro novo ainda está pagando o carnê.

Muitos não calcularam direito e não estão conseguindo pagar as contas. Cerca da metade do crescimento da inadimplência do mercado de crédito da pessoa física vem das operações de financiamento de veículos. A inadimplência acima de 90 dias no financiamento de veículos está em 5,7%, o maior patamar da série histórica apurada pelo Banco Central (BC). Em março, a inadimplência entre 15 e 90 dias chegou a 8,5%, a mais elevada para um mês de março desde 2009, pico do impacto da crise internacional no país.

A partir daí, os bancos passaram a ser mais seletivos. Financiamento sem entrada não existe mais; deve-se pagar no mínimo 20% do valor do automóvel para começar a negociar, e o prazo mais comum é de 48 meses.

Como cerca de 60% das vendas de automóveis são financiadas, o setor automobilístico está sendo bastante afetado. O estoque de veículos atingiu, em abril, o correspondente a 43 dias de venda, o patamar mais elevado desde novembro de 2008. A produção de veículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) caiu 15,5% em comparação com março. As vendas também recuaram 14,2% no mesmo período. As revendas, que estão bancando a maior parte dos estoques nas lojas, decidiram incentivar as vendas no último fim de semana oferecendo financiamento com juro zero, mas entrada equivalente a metade do preço do automóvel.

O que aconteceu com o financiamento de veículos se repetiu no crédito em geral, que cresceu muito nos últimos anos e dobrou em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) para perto de 50%, atingindo R$ 2,069 trilhões em março. Em 12 meses, o aumento está acumulado em 18% e o próprio BC esperava um crescimento menor, de 15%, neste ano.

No último mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) manifestou duas vezes a preocupação com o financiamento imobiliário no Brasil. De fato, essas operações cresceram 40% nos 12 meses encerrados em março, mas o volume equivale a apenas 5,2% do PIB, ou cerca de 10% do estoque total do crédito no país.

Os números ainda são pequenos perto do registrado em outros países e mesmo de outros mercados emergentes. Nada indica que o país está perto de uma bolha, como dizem alguns analistas internacionais. Mas é natural que passe a crescer em ritmo menor. Nos últimos cinco anos, o endividamento médio do brasileiro passou de 25% para 41,3% da renda anual. O comprometimento mensal com prestações está estável em 21,1%, de acordo com o BC, mas chegaria acima de 40%, segundo alguns economistas, se for incluído o crédito parcelado no cartão.

De acordo com a reportagem do Valor, as pessoas da classe C estão gastando mais com telefone, celular, internet, escolas privadas, viagens e serviços em geral, o que reduziu a demanda por crédito e a capacidade de endividamento.

A pressão do governo pelo aumento da oferta de crédito deve ser, portanto, conduzida com cautela e acompanhar a reativação da atividade econômica.

Fonte: Valor |

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