Objetivo é aumentar produção por hectare

Bettina Barros/Valor / Bettina Barros/Valor

São Félix do Xingu, no Sul do Estado do Pará, não encabeça mais a "lista negra" do desmatamento, mas ainda precisa avançar para deixar de fazer parte dela

O município de São Félix do Xingu, no Sul do Pará, não encabeça mais a "lista negra" dos principais desmatadores do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Mas a cidade ainda não saiu de vez da lista, ainda que um esforço concentrado tenha reduzido o desmatamento em 70% nos últimos cinco anos. A área atingida caiu de 761 km2 para 223 km2 entre 2008 e o ano passado. Para sair definitivamente da "lista negra", o desmatamento terá de ser reduzido para 40 km2 anuais. À beira do Rio Xingu, o município é o maior produtor nacional de gado.

A cidade pagou um preço alto pelo desflorestamento descontrolado das últimas décadas. Linhas de crédito rural foram cortadas e grandes frigoríficos, que se abasteciam da produção de gado local, começaram a temer sanções graves, como a responsabilização judicial pelos danos causados ao meio ambiente. Com o cerco se fechando, a cidade teve que se mobilizar para virar o jogo. A solução encontrada foi transformar o município em uma espécie de laboratório a céu aberto.

"Não é necessário derrubar mais uma única árvore na cidade para justificar o aumento da produção nacional de gado ou de qualquer outro produto da pauta de exportação. Basta aumentar a produtividade por hectare", defende Rodrigo Freire, coordenador de Floresta e Clima do Programa Amazônia da The Nature Conservancy (TNC, na sigla em inglês).

Em São Félix do Xingu, uma única cabeça de gado ocupa uma área de 10 mil m2, o equivalente a um campo de futebol. Através da campanha ‘Da Carne Sustentável do Campo à Mesa’, a ONG pretende ajudar produtores rurais locais a aumentar a produtividade. Esses criadores de gado fazem parte da cadeia produtiva do frigorífico Marfrig e da rede de varejo Walmart.

A produtividade dessas fazendas já subiu para 1,2 cabeças de gado por hectare. A meta é chegar em 2017 com quatro cabeças por hectare. O projeto-piloto da TNC conta com uma rede de 20 produtores rurais locais.

"Se conseguirmos fazer a virada verde em São Félix do Xingu, cai por terra a ideia de que é preciso substituir floresta por pastagem. São Félix do Xingu tem tudo para se transformar em um paradigma a ser seguido", afirma Rodrigo Freire. Ele lembra que o Estado do Pará iniciou em 2011 um pacto contra o desmatamento na região. A TNC atua no município de São Félix do Xingu desde o ano de 2009.

Não é de hoje que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) vem confirmando em seus relatórios que a pecuária tem sido a maior vilã do desmatamento da Amazônia.

No levantamento intitulado TerraClass, o órgão mostrou que 62,2% da Floresta Amazônica já foi destruída pelo pasto. Só que apenas metade dessa terra é de boa qualidade. Os outros 50% são áreas degradadas, de baixa qualidade, que não servem mais como pasto para o gado.

"A terra degradada pode ser melhorada com tecnificação, com correção de acidez do solo, com insumos, com adubos", diz o coordenador de Agricultura e Meio Ambiente da World Wide for Nature (WWF, na sigla em inglês), Pedro Miguel.

Parte significativa dessas áreas degradadas, abandonadas e de baixo valor comercial vem sendo ocupada por floresta plantada. Pinus e eucalipto já dominam 98% desse mercado, que ainda conta com outras espécies como seringueira, mogno africano e paricá. O setor florestal já é responsável por 2,5% do Produto Interno Bruto, mesmo ocupando apenas 6,3 milhões de hectares contra os 70 milhões de hectares de área agrícola no país.

O diretor da empresa Tree Florestal, Marco Tuoto, diz que a silvicultura vem registrando níveis de crescimento nos últimos anos que superam o o agronegócio. Enquanto a produção de madeira oriunda de floresta plantada cresceu entre 6% a 7% ao ano, o setor avançou sua produtividade com taxas entre 2% a 3% ao ano.

A presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), Marina Grossi, não só concorda com a tese defendida pelos ambientalistas como lembra que a redução do desperdício mundial de comida já seria suficiente para aumentar a oferta de alimentos frente à necessidade de abastecer uma população global crescente.

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) já chamou a atenção para a necessidade da implantação de ações de adaptação permanentes, que solucionem, de forma definitiva, problemas relacionados às mudanças climáticas que afetam a população. É que segundo o Relatório sobre Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades às Mudanças Climáticas, que foi divulgado em abril, os efeitos das mudanças climáticas já são percebidos e sentidos em diversos países e regiões do mundo, inclusive no Brasil.

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Fonte: Valor | Por Liana Melo | Para o Valor, de São Paulo

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