O quilombo que pode gerar novos sem-terra

Fonte:  Zero Hora

Previsão de entrega de área de 4,5 mil hectares para descendentes de escravos vai resultar em despejo de milhares de agricultores no distrito de Morro Alto entre Osório e Maquiné, no Litoral Norte

A reparação de um dano histórico causado a negros, a escravatura, pode resultar em prejuízo imenso a milhares de agricultores que vivem entre Osório e Maquiné, no Litoral Norte.

O governo federal se prepara para desapropriar uma área de 4,5 mil hectares na região, entregando-a a quilombolas – descendentes de escravos que viviam por ali no século 19. O ato resultará no despejo de centenas de famílias de origem italiana, alemã, polonesa e portuguesa que moram no local há mais de seis gerações.

Falta pouco para o despejo acontecer. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) já aprovou um relatório que reconhece a área como um antigo quilombo e, inclusive, prevê para breve o início da notificação dos atuais donos da terra, um grupo de 447 famílias de agricultores.

Os colonos asseguram que os desalojados serão muito mais, 950 famílias (3,8 mil pessoas) – mas apenas metade teria papéis comprovando a propriedade sobre a área. O cenário em Morro Alto, o distrito onde devem ocorrer as desapropriações, é de desespero e desconfiança entre negros e agricultores, que outrora viviam de forma harmoniosa.

– Minha família está aqui desde 1925, e não vamos nos mudar – avisa Lauro Ervino Gayer, 64 anos, ao mostrar cópia da escritura de propriedade do avô, Henrique.

Gayer é um dos mais antigos moradores de Morro Alto. Só nos últimos dois anos, financiou cerca de R$ 120 mil na compra de um trator e de uma câmara frigorífica, em empréstimo contraído junto ao governo federal. Está tudo por pagar, em 10 anos. Agora, o mesmo governo que o financiou cogita de lhe tirar a terra, reclama.

Obra da BR-101 valorizou a área

Drama similar atinge a maioria das famílias da região. Morro Alto já viveu da monocultura da cana-de-açúcar, mas desde os anos 80 respira outra realidade. Os agricultores, quase todos com pequenas áreas, investiram no plantio de 30 tipos de hortigranjeiros, com predomínio de alface e repolho. Outros plantam banana, como os primeiros migrantes da região.

Essa diversificação valorizou a terra, e os atuais proprietários não querem nem saber da hipótese de se mudar. É o caso de Augusto Milchareck, 62 anos, cuja família está desde 1927 na região (conforme atesta escritura de compra lavrada por seu avô, Augusto Dambros). Ele cria gado de corte, planta arroz e eucaliptos. Contraiu uma dívida de R$ 50 mil com o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para construção de uma mangueira, um brete, balanças, cercas para o gado e uma casa, que está pela metade.

– A duplicação da BR-101 valorizou as terras, que estão a uma hora de Porto Alegre e 15 minutos das praias. Como é que agora vão nos expulsar daqui? – questiona Milchareck.

A BR-101 é mesmo um nó nesse novelo de interesses. Os descendentes de escravos, que são 456 famílias, reivindicam 4.564 hectares. Grande parte dessa área está no entorno da rodovia ou é cortada por ela. Os brancos dizem que, se for levada ao pé da letra a reivindicação dos quilombolas, o governo federal teria de doar aos quilombolas parte da rodovia e, inclusive, um dos túneis que cortam a BR.

– Não é verdade. Não queremos a estrada, apenas que indenizem nossa comunidade por parte das obras ali feitas – rebate Wilson da Rosa, 53 anos, líder dos quilombolas.

humberto.trezzi@zerohora.com.br
HUMBERTO TREZZI

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