O papel da agricultura na economia verde (Artigo)

O mundo chegou a um ponto crítico. O boom demográfico expõe essa realidade. Hoje somos 7 bilhões de habitantes. Em 2050, essa superpopulação pode chegar a 9 bilhões – o que certamente aumentará a responsabilidade em garantir segurança alimentar de qualidade. Mas o grande desafio é que alguns dos recursos essenciais para sustentar a vida no planeta estão em crescente risco. A água, por exemplo, já está escassa e contaminada. O ar que respiramos, cada vez mais poluído e com excesso de gases estufa, particularmente dióxido de carbono. As florestas estão sendo decapitadas, os solos aráveis degradados e a fauna dizimada.

Sabemos que cerca de 925 milhões de pessoas passam fome no mundo. Uma em cada sete não tem o que comer ou não se alimenta adequadamente. São aproximadamente 1 bilhão de pessoas condenadas à morte ou a uma vida sofrida, em condições subumanas. A alimentação é direito fundamental de todo ser humano; uma precondição. Sem nutrição adequada, a população não tem saúde, e suas potencialidades físicas e intelectuais ficam comprometidas.

Essas reflexões nos obrigam a uma parada para repensarmos os modelos de desenvolvimento que temos seguido até agora. Levantamentos científicos e projeções indicam que o nível predatório do atual estilo de vida não é sustentável do ponto de vista social, econômico e ecológico. A sustentabilidade econômica garante um ciclo produtivo com ganhos em longo prazo; a social, padrões de dignidade e sociabilidade condizentes com a condição humana; já a ambiental, garante o direito à vida como um patrimônio inerente a todos os seres vivos, no presente e no futuro. Qualquer uma dessas áreas do desenvolvimento sustentável deve atingir um nível aceitável para que o resultado final seja positivo.

A economia verde corresponde a esse desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental) e constitui uma visão mais global, colocando na mesma equação as necessidades de produzir bens e serviços, de preservar a base de recursos naturais e de garantir a dignidade da pessoa humana. Um tripé que se relaciona numa base de equilíbrio, responsabilização mútua, suporte mútuo, e suporte do conteúdo global. O mais importante é que dela resultem a melhoria do bem-estar, a promoção da equidade social e a convivência sã com a natureza e o ambiente.

A agricultura é um multiplicador de vida vegetal e animal. Ela utiliza e gerencia 60% dos recursos atualmente empregados pela humanidade: terra, água, fauna, flora, minerais etc. Está interligada aos recursos naturais. Por ter esse privilégio, tem o forte compromisso de preservar o ecossistema.

Além dos serviços ambientais, a agricultura presta serviços sociais e econômicos, entre os quais a geração de emprego. Estima-se que 1 bilhão de pessoas trabalham no setor agrário, garantindo subsistência para cerca de 2,6 bilhões de pessoas.

Durante a Rio%2b20, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e seus parceiros internacionais promoverão uma série de debates sobre como materializar o ideal de tornar a economia mais verde por meio da agricultura. A clara percepção de que a economia verde precisa da agricultura e a agricultura precisa da economia verde norteará as discussões. A plataforma de debates é chamada de Greening the economy with agriculture – em português, Esverdeando a economia por intermédio da agricultura.

O conceito é novo, dinâmico, apaixonante e, essencialmente, necessário. Longe de ser um modelo acabado e rígido, é inclusivo, maleável, receptivo à criatividade e à diversidade. Se inspira na ciência, na pesquisa e em experiências exitosas. A ciência e a tecnologia devem ser postas a serviço da agricultura, da fauna, da flora e de seus atores. Para cada contexto, as soluções devem ser específicas, mas sintonizadas com o objetivo maior, que é a sustentabilidade global.

É importante recordar que a garantia de um bom nível de segurança alimentar é essencial para uma economia verde. A fome e a miséria encorajam práticas e hábitos desesperados e predadores para o meio ambiente.

Para além do princípio da sustentabilidade (integridade ambiental, robustez econômica, bem-estar social e boa governança) o conceito de "Esverdeando a economia por intermédio da agricultura" sugere um tratamento equilibrado dos três elementos da segurança alimentar: a disponibilidade, função da produção e do comportamento; o acesso, que defende a renda e os mercados; e a utilização, condicionada pelo conhecimento sobre o valor nutritivo dos alimentos.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF

Jornalista(s): HÉLDER MUTEIARepresentante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no Brasil