O ‘mercado’ e a oferta global de alimentos

Fonte: Valor | Por Sophia Grene | Financial Times

Keith Bedford/Bloomberg/Keith Bedford/Bloomberg
Mercado de alimentos na China: nas próximas décadas será preciso produzir mais alimentos que nos últimos 10 mil anos

A mão invisível do mercado pode até resolver algum dia o problema da oferta de alimentos em um mundo superpovoado, mas os investidores não podem ser dispensados da responsabilidade de ajudar essa mão a atingir tal objetivo, segundo gestores de recursos especialistas em investimentos agrícolas.

O problema precisa urgentemente de solução. Segundo a FAO, braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, nas próximas décadas será necessário produzir mais alimentos do que nos últimos 10 mil anos. A FAO calcula que até US$ 100 bilhões precisarão ser investidos na agricultura de países em desenvolvimento para elevar a produção mundial de alimentos em 70%, aumento que considera necessário para evitar que mais pessoas passem fome.

Os investidores que se voltam ao setor agrícola possuem uma pletora de formas para alocar recursos. Entre as possibilidades estão o mercado futuro de commodities agrícolas, investimentos em propriedades como os realizados por fundos de "private equity", compras de ações e financiamento de dívidas. A decisão envolve não apenas estudos sobre como os investimentos podem se encaixar em suas carteiras, mas também a intenção dos agentes ao entrar com esses recursos.

"Qual é o interesse, buscar soluções em vez de tentar lucrar com a situação?", pergunta Ralf Oberbannscheidt, que administra € 2,2 bilhões no Global Agribusiness Fund, da DWS. O debate sobre a ética de se investir em commodities no mercado futuro é permanente. A ala que sustenta que a especulação empurra os preços para cima e aumenta a volatilidade ganhou terreno ultimamente, uma vez que a opinião pública, em geral, passou a ficar mais contrária à negociação de derivativos. Mas a avaliação do mundo acadêmico, baseada nas evidências do único caso real testado – o impacto da lei americana de 1957 que proibiu a negociação de contratos futuros de cebola -, é inconclusiva.

Para Oberbannscheidt, a negociação de contratos futuros não apenas é reprovada como uma "solução" para o problema da oferta de alimentos, mas também é indesejável porque o mercado é distorcido em seus fundamentos. "As commodities agrícolas são negociadas de forma muito ineficiente (…) Elas são retardatárias ao reagir aos eventos mundiais, principalmente porque o mercado é muito centrado nos EUA". Ele observa que esses mercados são em grande parte guiados por especialistas em mercados futuros, não em produção de alimentos.

Em seu relatório "Perspectivas Alimentares", a FAO sustenta que "deixar os mercados internacionais continuarem em seu estado atual, volátil e imprevisível, apenas agravará as perspectivas já sombrias para a segurança alimentar mundial".

Nos últimos três ou quatro anos, aumentou o interesse em investir em terras cultiváveis, porém mais recentemente esse tipo de negócio passou a sofrer uma avaliação mais crítica de organizações não governamentais como a Oxfam, que promove campanha chamada "Grow" (cultive, em inglês) para colocar em evidência o impacto dos investimentos internacionais em terras sobre as populações locais. Para suavizar alguns desses problemas, um grupo de trabalho ligado aos Princípios para o Investimento Responsável, da ONU, elaborou um conjunto de diretrizes para guiar investimentos em terras agrícolas.

Porém, além das possíveis questões éticas, muitos investidores ficaram decepcionados com os retornos de seus primeiros investimentos em terras. "A maioria tinha projeções de retornos pouco realistas, carecia de capacidade administrativa, não tinha o horizonte de tempo apropriado ou encontrava problemas de documentação", afirma Oberbannscheidt.

Outro problema é que em algumas regiões, como no Brasil, os valores das terras dispararam, tornando o investimento menos atraente. "Houve um pouco de disputa pela propriedade das terras", observa David Creighton, executivo-chefe da canadense Cordiant Capital, especializada em dívidas do setor privado em países emergentes. "Os preços decolaram no Brasil, a ponto de o modelo não ser mais tão sólido."

Em vez disso, a Cordiant Capital, que vem concedendo crédito a projetos de agronegócios há dez anos, concentra-se em segmentos como produção de maquinário e equipamentos, produção de fertilizantes e silos para grãos. Creighton diz que a Cordiant Capital normalmente oferece rendimentos de 3 a 6 pontos percentuais acima taxa interbancária do mercado de Londres (Libor) para dívidas sênior com garantia. Em termos de risco de crédito, Creighton afirma que a Cordiant Capital explora "o telhado de vidro de empresas em mercados emergentes, cuja percepção de ‘rating’ de crédito é limitada à de seus países".

Com a análise apropriada das contas, é possível buscar investimentos para sua carteira em oportunidades de concessão de crédito para empresas que, na prática, são de "grau de investimento", particularmente porque em geral são garantidas por ativos reais, como terras e maquinário.

Embora o financiamento de dívidas possa oferecer oportunidades de investimento que não estão nos mercados de ações, nem todos os investidores sentem-se confortáveis com a ideia de investir em títulos do setor privado em países emergentes.

É possível encontrar mais transparência e liquidez nas ações. Oberbannscheidt está convencido de que as ações negociadas publicamente são a melhor forma para os investidores participarem tanto de uma oportunidade de investimento como de uma solução para o problema. "Precisamos melhorar a eficiência de toda a cadeia de valor". Um obstáculo é que os investidores em renda variável raramente pensam em um horizonte suficientemente longo para que o aporte no setor tenha melhor eficiência.

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