O melhor mel do mundo reportagem especial

A 26ª Festa do Mel de Cambará do Sul, marcada para a primeira quinzena de maio, foi transferida para a mesma época de 2021 em função do coronavírus. Também foi cancelada a jornada de palestras de alguns dos mais experientes membros da cúpula da apicultura sulina.Menos mal que, no início de março, veio de Brasília uma boa notícia: está no Congresso, para regulamentação, um projeto que autoriza os apicultores da região a identiicar como “Mel de Florada Nativa” a produção originária dos Campos de Cima da Serra. Dois tipos de mel silvestre se destacam na região: o claro e o escuro, cujas colorações dependem da vegetação visitada pelas abelhas em sua faina por néctar e pólen.

O selo é fruto do trabalho da Associação dos Apicultores dos Campos de Cima da Serra (Apicampos), a mais nova entidade apícola do Rio Grande do Sul, criada em 2014 por Mário Boeira, apicultor, fazendeiro e professor de gaita, que já transferiu o comando da entidade ao ilho Gabriel Boeira, apicultor, pastor evangélico e radialista.

Com 54 associados em sete municípios (Bom Jesus, Cambará do Sul, Jaquirana, Monte Alegre dos Campos, São Francisco de Paula, São José dos Ausentes e Vacaria), a Apicampos promove cursos em parceria com o Senar e faz compras coletivas de insumos para a apicultura. E está empenhada na ixação da Rota do Mel, uma típica parceria público-privada que combina apicultura e turismo ecológico.

Como parte desse esforço, tenta-se agora construir (em Jaquirana) uma casa de mel onde os associados possam processar legalmente a produção regional sem precisar se deslocar para entrepostos distantes – Osório, Ivoti, Novo Hamburgo ou Viamão, cujas associações apícolas possuem instalações autorizadas pelo Ministério da Agricultura. No Rio Grande do Sul, há 90 associações de apicultores.

Metade delas está ativa, as outras são tidas como latentes ou inoperantes por causas diversas, entre elas o envelhecimento dos associados que abandonam a atividade por não ter herdeiros dispostos a levar adiante o negócio.

Têm sido poucas as sucessões familiares bem-sucedidas. Algumas, de pai para ilha.

É o que acontece no Apiário Cambará, cujo fundador, Irineu Castilhos, de 78 anos, está passando para a ilha Liane Castilhos o negócio criado em 1982. São 500 caixas de abelhas espalhadas num raio máximo de 20 quilômetros do centro da cidade, onde a família mantém uma loja de produtos apícolas.

Com um rendimento muito acima da média gaúcha (18 quilos por colmeia/ano) e um custo de produção baixo (R$ 2,00 por quilo, segundo estimativa feita há 10 anos), os Castilhos vivem da apicultura, atividade crescente na região. Das 400 famílias de pequenos agricultores assistidas pela Emater em Cambará, 120 possuem colmeias e 30 tiram seu sustento principalmente das abelhas.

Não admira que, tendo esses apicultores como referência, a Apicampos incentive a instalação de apiários de nativos em espaços disponíveis na região. Se isso acontecer, a renda apícola beneiciará mais a população serrana do que os praticantes da apicultura itinerante. Mas não basta instalar as colmeias achando que algum tempo depois bastará “tirar o mel”. A apicultura sedentária requer vigilância. Uma das boas práticas consiste em oferecer pacotes proteicos às abelhas nos invernos mais rigorosos e em momentos de escassez dos pastos apícolas naturais.

É aí que o bicho pega.

Alguns anos atrás, os primeiros “alienígenas” chegados aos Campos de Cima da Serra foram recebidos com desdém por fazendeiros, mas alguns se animaram com a remuneração oferecida a título de arrendamento. A onda cresceu até dar origem a certa animosidade, lembrando o confronto de interesses entre os defensores da Mata Atlântica e os adeptos do plantio de árvores exóticas como o pinus, intensamente plantado em áreas campestres há 50 anos – com incentivos iscais ao relorestamento. A rigor, as abelhas são as protagonistas emergentes da disputa por espaços apícolas naturais, longe de áreas cultivadas mecanicamente.

Apicultores de Cambará chegam a airmar que alguns dos colegas itinerantes são tão vorazes no seu apetite inanceiro que estacionam nos Campos de Cima da Serra não tanto para produzir mel, mas para restaurar seus enxames depauperados pela temporada estafante nos pomares de maçã, onde a produção de mel é insigniicante, razão pela qual parte da colônia morre de fome.

Porém, como as abelhas não descansam, é claro que mesmo estressadas produzem um volume de mel que acaba sendo levado para entrepostos distantes.

Apicultura do Rio Grande do Sul produz sabores variados em diferentes regiões A apicultura gaúcha produz 8 mil toneladas de mel por ano. O de eucalipto representa cerca de 50% da produção, segundo a Federação dos Apicultores do Estado (Fargs).

Também pesam bastante – até 30% do total – os méis silvestre e de lores do campo, cuja denominação mais confunde do que esclarece, pois ambos procedem das mesmas fontes da lora regional e, ainda, de lores de plantas cultivadas. Os demais tipos de mel são regionais.

Nos Campos de Cima da Serra, que reivindica um selo geográico para o que denomina “mel de lorada nativa” – um “silvestre” típico da região -, destaca-se o mel branco, proveniente da lorada de três árvores da Mata Atlântica do Nordeste gaúcho: carne-de-vaca, gramimunha e guaraperê, que geram mel esbranquiçado quando cristaliza sob o frio.

Em 2019, a Apicampos estimou em 650 toneladas a produção da região, cabendo ao mel branco uma parcela de 90 toneladas. Além disso, calculou-se em 45 toneladas a produção de melato, proveniente da bracatinga, árvore de cuja resina (e não das lores) as abelhas fazem um mel rico em sais minerais. Os apicultores serranos reivindicam um selo de identiicação geográica tanto para o mel branco quanto para o melato.

Os outros méis característicos da lora gaúcha são o de laranjeira, mais produzido nos vales dos rios Caí e Taquari. No Litoral Norte, predomina o mel de quitoco, erva rasteira de várzeas úmidas. Nos últimos anos, alguns apicultores passaram a elaborar rótulos do mel de uva-do-Japão, bela árvore asiática que se adaptou tão bem ao Sul que se tornou “invasora”. É a última novidade de uma vegetação que há meio século produzia e comercializava méis de angico, aroeira, timbó, unha-de gato e outras especialidades desaparecidas ou restritas a areas muito pequenas.

Fonte: Jornal do Comércio