O marqueteiro, por Paulo Brossard*

Por mais capaz que seja um governante, ele necessita contar com pessoas competentes, honradas e leais; afeitas a levar a franqueza ao ponto de afastar a cortesania. A complexidade do mundo moderno, ampliação das funções estatais, as exigências cada vez maiores da sociedade impõem ao governante abastecer-se de todos os possíveis recursos úteis, para bem exercer suas personalíssimas atribuições. Aliás, Mathias Aires, no século 18, escreveu nas Reflexões sobre as Vaidades dos Homens, que só Deus governa só.
Sem dúvida, os ministros são conselheiros legais do presidente, mas têm os respectivos ministérios para gerir e o presidente necessita de pessoas que tenham os requisitos de um ministro e estejam à altura de seus olhos, para servi-lhe a todo momento; estou a imaginar que essa companhia venha a ser uma espécie de conselho privado, da maior confiança e melhor qualidade, sem embargo de manter o natural bom convívio com os ministros.
Ora, não me parece que a senhora presidente desfrute desse serviço, parece mesmo que ela ostenta os seus talentos mais variados, agora predominantemente relacionados com a almejada reeleição; sem demérito algum, é de toda evidência que a presidente não tem os colaboradores que poderia ter, como deixa a mostrar inevitáveis deficiências, fáceis de evitar. Exemplo disso foi quanto ao preço do combustível na bomba, independente do seu custo, ordem que durou pouco e ensejado notícias e desmentidos. Enfim, não tem o que deveria possuir e em seu lugar instalou criatura da modernidade, capaz dos melhores milagres – o marqueteiro.
O marqueteiro cuida da popularidade da presidente e, isto posto, o resto deixa de ser problema, pois o marqueteiro provê, na hora e medida desejadas. Ele fabrica suficiências.
Não estou a fazer suposições. O leitor está lembrando que a senhora presidente desfrutou de generalizada simpatia que lhe assegurava 70% de aprovação popular, se não mais. Por motivos tais ou quais, a lisonjeira situação sofreu redução, oito pontos salvo engano, no entanto, mantendo a maioria; a segunda contagem, acusou queda maior, assim como a terceira; enfim, a redução foi expressiva; foi quando o próprio marqueteiro anunciou que em quatro meses tudo teria voltado à situação primitiva. Ocorreu que os meses passaram e o quadro não voltou ao que fora.
Em outras palavras, o marqueteiro foi elevado às culminâncias da supremacia. Ocorre que, sem a menor preocupação de pôr em dúvida os talentos mágicos dessa personagem, pode ser e deve ser um prestidigitador ou ilusionista de alto coturno, possuidor de segredos que lhe permitam gerar expectativas e vender sonhos e operações fictícias, mas que agradam aos seus adquirentes. Será pouco? Seria exigir demais. O marqueteiro é insubstituível. Pode até alterar a natureza das coisas…

* Jurista, Ministro Aposentado do STF

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