O impulso no País e no Rio Grande do Sul

A I Festa Nacional da Soja foi realizada em 1966 em Santa Rosa, município tido como o berço do cultivo dessa planta nativa da China. Calhou de ter sido lançada nessa festa a variedade de soja batizada com o nome da santa pelo técnico agrícola Juarez Pinto Gutterres, da Secretaria da Agricultura. Descendente da linhagem L-326, desenvolvida em Campinas pelo americano Leonard Williams, a Santa Rosa se tornou a variedade mais difundida nos anos 1960 não só no Rio Grande do Sul, mas em outros estados atentos à estrela agrícola emergente no "milagre econômico brasileiro".

O ano de 1967 é considerado o ano zero da arrancada proissional da sojicultura.

Foi quando o Banco do Brasil, que sempre comandou a política de crédito rural (criada em 1961 pelo presidente Jânio Quadros), decidiu inanciar a Operação Tatu, um experimento de aplicação de calcário nos solos ácidos do norte gaúcho.

Segundo os agrônomos, os campos tapados de capim barba-de-bode precisavam ter seu pH corrigido para se tornar férteis a ponto de favorecer a substituição da pecuária por lavouras de grãos. Tocada ali havia décadas com apoio oicial, a triticultura capengava.

A ideia era que, plantada em rodízio, a soja servisse de muleta para o trigo produzir mais nas mesmas áreas. A receita técnica mandou sulcar o solo de modo a se aplicar o calcário um palmo abaixo da superfície – no mesmo sulco, deviam ser colocadas as sementes de soja. Dando certo, a área experimental de 20 mil hectares em 2 mil propriedades na região de Cruz Alta, Ijuí e Passo Fundo seria duplicada no ano seguinte, e assim por diante.

Os resultados foram tão bons que a dobradinha trigosoja foi louvada até por dupla sertaneja. Mas ninguém esperava que, em poucos anos, a soja avançaria pelo Brasil afora, desfazendo o casamento de ocasião arranjado pelo governo. O tatu da Emater foi atropelado pela louca aventura levada ao Brasil Central por milhares de gaúchos que trocaram pequenas propriedades coloniais por amplas áreas virgens nos Cerrados.

Meio século depois, a sojicultura chegou ao recorde de 5,9 milhões de hectares cultivados no Rio Grande do Sul – no País, são 36 milhões de hectares, pouco mais da metade da área cultivada por lavouras temporárias. Com mais de 120 milhões de toneladas, a produção brasileira equiparou- se à dos EUA, líder agrícola desde o início do século XX. A revolução promovida pela soja não se restringiu à eiciente exploração das terras cultivadas: também houve mudanças na agronomia, nos transportes, no comércio exterior, na industrialização e até nos costumes alimentares.

Fonte: Jornal do Comércio

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