O Brasil de fato e o Brasil “interpretado”

Fui fazer uma reportagem na cidade de Fernandópolis, na região noroeste do Estado de São Paulo. Três estradas movimentadíssimas, Bandeirantes, Washington Luiz e Euclides da Cunha, com caminhões de transporte, ônibus e automóveis a não dar trégua. Fiquei hospedado em um hotel que tinha todos os seus apartamentos ocupados – se não me engano, 60. “Dia de semana é assim. É um vai e vem constante, principalmente de pessoas ligadas à agropecuária e representantes de vendas de empresas. O Brasil está muito agitado”, observou o gerente. Ele informou ainda que o desemprego é baixo por lá. “Os jovens não precisam ir mais para a capital”, enfatizou. E olha que a cana avança dramaticamente pelas fazendas da região. Ocupa todo o espaço.

Ocorre que o interior paulista tem apresentado um crescimento pujante nos últimos anos. Empresas têm se deslocado para lá, o setor de serviços abre vagas para muita gente e a falta mão de obra no agronegócio é gritante. Aliás, por falar em mão de obra, hoje li o jornalista Clóvis Rossi afirmar na Folha de S. Paulo que o desemprego na Holanda é de 8,1%. Pessoal, ele citou a Holanda, não a Espanha, a Grécia, Portugal, países nos quais o desemprego fica acima dos 20%. No Brasil, o índice está abaixo de 6%. Sem mais palavras.

Eu já contei aos meus 10 leitores acerca da facilidade de empregos em regiões onde o agronegócio segue a mil, como Mato Grosso. Falta gente para conduzir colheitadeiras, não há peão para cuidar do gado.

Outro articulista da Folha, Jânio de Freitas, explicou também (me ajudando assim a entender melhor o que acontece com o país hoje) a falta de sintonia entre o que meus olhos observam em minhas andanças por todos os cantos do país e o que leio na imprensa, principalmente quando os “especialistas do mercado” analisam a conjuntura econômica. Jânio comentou o fato de as vendas no comércio de varejo ter caído a “barbaridade” de 0,1% em março diante de fevereiro.

Sim, 0,1%, num contexto de bilhões de dólares e com preços crescendo. E olha que em relação ao mesmo mês de 2012, houve alta de 4,5%. Óbvio que o 0,1% mereceu comentários negativos da parte de analistas culpando a política econômica, a qual, segundo eles, está esgotada – eu discordo, claro. Do alto de décadas interpretando o Brasil, Jânio escreveu que “o terrorismo do noticiário e dos comentários econômicos martela o dia todo.”

Ah, sim, no chamado varejo ampliado, que inclui atividades de material de construção a veículos, as vendas subiram 0,2% em março sobre fevereiro. E então?

Para terminar: um fazendeiro que produz uma marca de carne lá na região noroeste de São Paulo e que possui um ponto próprio na qual vende o produto na cidade me revelou que não dá conta da demanda e que é “impossível” atender pedidos vindos de casas comerciais de outros municípios.

(Fotos: Ernesto de Souza/Ed. Globo)

Fonte: Globo Rural

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