"Nunca prometi prazo para virar o jogo na BRF", diz Pedro Parente

Claudio Belli/Valor

Pedro Parente (à esquerda), ao lado de Lorival Luz: constante queima de caixa da BRF vai se reverter no curto prazo

"Nunca prometi prazo para virar o jogo". A franqueza de Pedro Parente pode até decepcionar investidores que, pouco meses atrás, se entusiasmaram com a indicação do executivo para a presidência do conselho de administração da BRF. No entanto, a direção está convicta de que esse é o caminho para tirar a BRF da maior crise de sua história.

Em entrevista por telefone ao Valor, Parente disse compreender a insatisfação dos investidores com a demora na reação da BRF. Ontem, dia em que a companhia divulgou o resultado do terceiro trimestre – com prejuízo de mais de R$ 800 milhões -, as ações da BRF recuaram 5,6%, para R$ 21 na B3. Foi a terceira maior queda do Ibovespa.

De acordo com Parente, a recuperação da BRF demanda tempo. A sinalização é que a rentabilidade da companhia só retomará os níveis históricos em 2020. Tentar abreviar isso seria um equívoco. Para o executivo, não se pode perder de vista que a empresa tem uma cadeia produtiva bastante longa. O ajuste na produção de frango demora alguns meses. Em suínos, são anos, afirmam especialistas do setor.

"As tentativas passadas de tentar abreviar esse processo [a longa cadeia produtiva] deram no que deram", disse Parente. "Não vamos prometer o que a gente não pode entregar", acrescentou.

Nesse sentido, ele se fia na única meta que já adiantou ao mercado. A BRF vai arrecadar R$ 5 bilhões com o plano de monetização – em torno de R$ 3 bilhões deverão vir com a venda dos ativos na Argentina, na Europa e na Tailândia, que será anunciada neste ano. Com isso, o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado) da BRF tende a cair para 4,35 vezes até dezembro. Em setembro, esse índice estava em 6,7 vezes, nível considerado "preocupante" por analistas como Thiago Duarte, do BTG Pactual.

"O que prometemos foi um compromisso de alavancagem de 4,35 vezes [até dezembro] e terminar o ano que vem em 3 vezes", disse Parente. Dessas promessas, ele não arreda o pé.

Ao Valor, Parente e Lorival Luz, executivo que está sendo preparado para assumir o cargo de CEO da BRF em 2019, minimizaram os temores de que a espiral de endividamento coloque a empresa em xeque. "Se você olhar a posição de caixa, é mais que suficiente para pagar a dívida até o ano que vem", acrescentou Luz.

No fim de setembro, a companhia tinha R$ 6,3 bilhões em caixa, além de um crédito rotativo de US$ 1 bilhão (o equivalente a R$ 4 bilhões). Do outro lado, a BRF tem R$ 5 bilhões em dívidas a vencer entre o quarto trimestre e todo o ano de 2019. "O valor da dívida é bem inferior ao nosso caixa, e além disso tem todo o processo de geração de R$ 5 bilhões", ressaltou Luz, que hoje é vice-presidente executivo da BRF.

Parente também salientou que a constante queima de caixa da empresa vai se reverter no curto prazo, o que impediria um aumento da dívida. "Nós vemos claramente um fluxo de caixa positivo no quarto trimestre", disse ele, ressaltando que a empresa vai reverter o aumento da necessidade de capital de giro vista no terceiro trimestre em razão da formação de estoques de produtos natalinos e da aquisição de grãos – o terceiro trimestre é o período de colheita da segunda safra brasileira de milho.

Com essas perspectivas, Parente e Luz argumentaram que a BRF terá total tranquilidade – financeira – para atravessar 2019. A partir daí, a empresa voltaria à normalidade operacional. Parente não abre os números dessa normalidade, mas analistas calculam que a margem Ebtida histórica da BRF é de pouco mais de 10%. No terceiro trimestre, essa margem ficou abaixo de 5%.

Diante do caixa considerado confortável pela empresa, a BRF estaria menos suscetível a virar um alvo de investidores internacionais. A hipótese, inclusive de uma oferta hostil, voltou ao radar de investidores receosos com o nível de endividamento. "O único processo que está em andamento é o que anunciamos [de venda dos ativos na Argentina, Europa e Tailândia]", disse Parente.

Um candidata sempre citada é a americana Tyson Foods, que no passado manteve conversações com a BRF para uma possível fusão, por meio da troca de ações. Na quarta-feira, em uma rara entrevista (ver Agora, Tyson foca expansão no exterior), o CEO da Tyson, Noel White, disse que a empresa quer voltar seu foco para a expansão internacional – sobretudo no mercado da China.

White não citou o Brasil e tampouco a BRF, mas há quem diga que há lógica financeira na operação. Se no passado, quando discutiram a fusão, o valor de mercado de BRF e Tyson eram bem mais próximos, hoje a diferença é grande e uma aquisição – e não união – faria mais sentido. Enquanto a Tyson vale mais de US$ 22 bilhões na bolsa de Nova York, a BRF tem um valor de mercado equivalente a US$ 4,7 bilhões (R$ 17 bilhões. Com o fortalecimento do dólar, a diferença pode aumentar

Fonte : Valor