Novos limites para micotoxinas desafiam indústria do trigo

A partir de 1º de janeiro, todos os pacotes de farinha e farelo de trigo, biscoitos e massas terão limites mais rigorosos para o teor de micotoxinas – substâncias tóxicas produzidas por fungos que atacam as lavouras do cereal -, conforme definiu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A cadeia do trigo já sabe disso há bastante tempo, dado que a vigência das novas regras foi postergada por dois anos para o segmento se adequar, mas as pesquisas para reduzir a contaminação nas lavouras avançaram pouco nesse tempo.

Com isso, as mudanças poderão levar a indústria a ter que importar mais trigo em safras domésticas marcadas por maior contaminação. O Brasil já é um dos maiores importadores de trigo do mundo. Neste ano, o Brasil deverá importar cerca de 60% do trigo que consome, sobretudo da Argentina.

Limites máximos de micotoxinas começaram a entrar em vigor em 2012. Desde então, vêm sendo reduzidos progressivamente pela Anvisa. Em alimentos à base de trigo, a principal micotoxina é o Desoxinivalenol (DON), que em altas doses pode provocar desde vômitos e diarreia até, em níveis muito elevados, hemorragias generalizadas e morte.

A incidência do DON no trigo decorre da infestação do fungo giberela nas lavouras, que aparece quando o tempo está muito úmido na fase final do cultivo.

Na safra brasileira atual, recém-colhida, relatos da indústria indicam que algumas áreas produtoras do Rio Grande do Sul e do sul do Paraná que receberam mais chuvas que a média histórica na colheita tiveram algum nível de infestação de giberela. Os levantamentos ainda não foram concluídos, mas já foram identificados lotes com DON acima do nível máximo atual permitido pela Anvisa.

Desde que começou a discussão sobre os limites máximos de micotoxinas, em 2011, a Biotrigo Genética vem realizando pesquisas para desenvolver variedades mais resistentes ao fungo. O problema, segundo André Cunha Rosa, diretor da companhia, é que o perfil da planta, com muitos genes, torna longo o processo de desenvolvimento de variedades – cerca de oito anos.

"Achávamos, em 2011, que teríamos algo em 2020, mas já vimos que não. Também não teremos em 2025 e talvez nem em 2030".

Com 75% de participação no mercado de sementes de trigo no país, a Biotrigo já desenvolveu 15 variedades com resistência à giberela que, em condições normais de temperatura e pluviosidade, dão conta de impedir a infestação do fungo. Mas a contrapartida é um índice de produtividade agrícola entre 10% e 15% menor que o de outras variedades não resistentes.

Em anos em que ocorre "incidência epidêmica" de giberela, porém, as variedades não são suficientes. Rosa avalia que a incidência epidêmica do fungo pode acontecer uma vez a cada cinco safras, e calcula de uma a duas incidências mais fracas nesse período.

Enquanto a produção nacional de trigo estiver suscetível à incidência do fungo, a solução para a indústria deverá ser recorrer ao cereal de outros países. "A solução pode ser trazer mais trigo de outros países, principalmente da Argentina, que não tem esse problema", diz Daniel Kümmel, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado do Paraná (Sinditrigo).

Dependendo da quantidade de trigo contaminada por DON na safra recém-colhida no país, pode ser que os moinhos já busquem mais cereal em outros mercados, afirma Luiz Carlos Caetano, assessor técnico da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

"O grande problema da micotoxina é climático. Em anos em que não há problema, a questão da micotoxina não vem à tona e atende-se à lei perfeitamente. Nesse ano, houve problema climático", diz Caetano.

Enquanto o desenvolvimento genético de trigo não deslanchar, ele defende que os produtores invistam mais na aplicação de fungicidas. Para Rosa, a aplicação adequada de fungicida e do produto apropriado já faz diferença para evitar a contaminação por giberela.

Para o produtor, eventuais cargas rejeitadas pelos moinhos por não se encaixarem nos limites de micotoxinas podem ser vendidas como ração. Mas, em anos de maior incidência de fungo, isso pode inclusive desvalorizar o trigo vendido para essa finalidade, observa Hugo Godinho, técnico do Departamento de Economia Rural (Deral) da secretaria de Agricultura do Paraná.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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