Novas investigações em curso

A Trapaça não será a única etapa da Operação Carne Fraca a ser deflagrada em 2018. É o que garantem fontes do Ministério da Agricultura, que, ao contrário do que aconteceu na primeira fase das investigações, deflagradas em março do ano passado, atualmente colabora com os trabalhos liderados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF).

As fontes não souberam detalhar datas ou focos das próximas etapas da operação, mas adiantaram que há mais de uma frente de apurações de irregularidades em andamento. E que, se a Trapaça se debruçou sobre laudos forjados por laboratórios para maquiar elevados níveis de presença de salmonela na carne de frango produzida em algumas unidades da BRF, o próximo capítulo poderá voltar a se concentrar nos fiscais.

Esse foi o foco da primeira fase, quando a Carne Fraca destrinchou casos de corrupção entre fiscais agropecuários e funcionários de frigoríficos. O que chama a atenção dos investigadores agora, conforme as fontes consultadas pelo Valor, são casos de fiscais que aparentam ter padrões de vida incompatíveis com seus salários. Sinais dessas incompatibilidades teriam ficado evidentes já na operação de março de 2017.

Foram apreendidos na época, por exemplo, diversos automóveis importados e bens pessoais de luxo com o ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, o fiscal Daniel Gonçalves, considerado pelo Ministério Público Federal como o "chefe da organização criminosa" nas investigações de corrupção, que está em prisão domiciliar. Casos semelhantes estão na mira.

Procurado pela reportagem, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, negou que a Pasta tenha informações sobre novas etapas da Carne Fraca. Mas afirmou que, se novas fases vierem, a Pasta estará preparada para as repercussões, até porque tem colaborado com as investigações.

"Pode haver outras operações, mas muita coisa também já mudou desde que a Operação Carne Fraca estourou", afirmou o secretário, que ontem estava em São Paulo. Porém, ele admitiu que o país não está imune a possíveis embargos de países importadores, dependendo do que as investigações revelarem.

Ontem, a preocupação do governo e da iniciativa privada em relação a eventuais embargos decorrentes da Operação Trapaça era sensivelmente menor que na segunda-feira. Segundo o ex-ministro Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), apenas União Europeia e Hong Kong pediram explicações formais ao Brasil sobre o caso.

De acordo com Turra, o Ministério da Agricultura foi ágil, enviando explicações aos diversos importadores antes mesmo que eles as tivessem solicitado. Nos casos da UE e Hong Kong, isso só não aconteceu porque os pedidos feitos pelas autoridades foram "concomitantes" ao envio das explicações do Brasil.

Para Turra, desde o trauma da primeira fase da Carne Fraca, o Brasil "aprendeu bastante". Desta vez, a governo brasileiro conseguiu rapidamente circunscrever os problemas aos três frigoríficos da BRF, em Mineiros (GO), Rio Verde (GO) e Carambeí (PR). Essas unidades tiveram as exportações suspensas pelo próprio Ministério da Agricultura.

Mas o presidente da ABPA fez questão de lamentar as irregularidades cometidas na BRF. "É má prática, ilegal. Quem quer ser global, não pode errar", disparou.

Por Cristiano Zaia e Luiz Henrique Mendes | De Brasília e São Paulo

Fonte : Valor

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