Nova linha financiará a aquisição de terra degradada no Cerrado

  • Nilani Goettems/Valor

    Carlos Aguiar, diretor do Santander: crédito será para áreas produtivas

    O banco Santander, em parceria com a Bunge e a organização ambientalista The Nature Conservancy (TNC), anunciaram ontem um novo mecanismo de crédito de longo prazo voltado exclusivamente para a aquisição e conversão de terras agrícolas no Cerrado.

    O financiamento tem como objetivo nortear a expansão da soja em áreas já abertas e degradadas, evitando a derrubada desnecessária das matas nativas. O Cerrado é o segundo maior bioma do país, depois da Amazônia, e agora o mais pressionado por abranger grande parte de terras aptas – e baratas – para o plantio de grãos no Brasil.

    A modalidade, inédita na carteira de crédito ao agronegócio brasileiro, será rodada em caráter piloto neste primeiro ano. Serão disponibilizados, já a partir de setembro, US$ 50 milhões. O Santander arcará com 65%, a Bunge com 35% e a TNC com os restantes 5% do montante total. A intenção do banco é que todo o valor seja contratado até junho de 2019.

    "O dinheiro será suficiente, neste primeiro momento, para a aquisição de três a cinco áreas, dado o tamanho das propriedades rurais no Brasil", afirmou Carlos Aguiar, diretor de agronegócio do Santander.

    Diferentemente dos empréstimos tradicionais ao setor, que duram apenas uma safra, este terá prazo de até 10 anos. Os juros irão girar em torno de 6% a 11% ao ano, dependendo do perfil de risco do tomador. "Não existia dinheiro para a aquisição de fazendas com prazos tão longos. Mas é um prazo compatível com o ‘payback’ da aquisição e transformação de áreas que vão precisar de investimentos para voltar a serem produtivas", disse Aguiar. O executivo ressaltou que o dinheiro será para áreas produtivas, e não recuperação ambiental.

    "A estratégia é nortear a expansão agrícola para áreas já consolidadas e aptas à conversão", disse Michel Santos, diretor de Sustentabilidade da Bunge, uma das maiores tradings agrícolas do país. "E isso é um marco porque sabemos que existe uma grande pressão por desmatamento no Cerrado".

    A Bunge será responsável por identificar entre os seus clientes os possíveis candidatos ao crédito – sojicultores estruturados e com intenção de expansão – e o monitoramento quanto ao cumprimento de um protocolo ambiental determinado e concordado no ato da contratação. A companhia diz já monitorar 6.500 propriedades rurais no país. À TNC caberá também indicar áreas "go and no go".

    Existem hoje no Brasil estimados 25 milhões de hectares desmatados e aptos à agricultura no Cerrado. A produção da oleaginosa triplicou entre 2001 e 2017 no país, com o Cerrado absorvendo boa parte dessa expansão, conforme o mapeamento de áreas com o grão no bioma realizado pela Agrosatélite.

    Considerando a área original de 204 milhões de hectares, o bioma brasileiro já perdeu 47,84% da cobertura de vegetação para pasto e lavouras de soja, conforme o Ministério do Meio Ambiente.

    "O Cerrado tornou-se um campo de discussões acalorado por parte de sociedade civil brasileira. E não é por menos. Todos os esforços para proteção da Amazônia acabaram deixando este bioma para segundo plano", diz Antonio Werneck, CEO da TNC.

    No ano passado, Bunge, TNC e outras organizações lançaram a plataforma Agroideal, uma ferramenta online para ajudar o setor a tomar melhores decisões sobre onde expandir a sua produção.

    Por Bettina Barros | De São Paulo

    Fonte : Valor

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