Nova geração à frente da lavoura

Presença de jovens nos corredores da Expodireto Cotrijal reflete troca de comando nas propriedades rurais

Nova geração à frente da lavoura Diogo Zanatta/Especial

Willian Wilhelm, 17 anos, trabalha com o pai em propriedade de GauramaFoto: Diogo Zanatta / Especial

Bestor Tipa Júnior

nestor.junior@zerohora.com.br

Basta uma volta pela Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque para ver que uma nova geração de produtores está assumindo posições de comando. Jovens na faixa de 30 anos estão tomando a frente da gestão e aliam a tradição herdada dos pais com a vontade de inovar.

— É a juventude que proporciona esse momento de inserção da tecnologia na produção agrícola — salienta Mateus Tonezer, 31 anos, líder do núcleo de jovens de Vista Alegre da Cotrijal.

Com 50 hectares de soja e milho, além da produção de leite em Colorado, no Noroeste, Mateus tem se dividido entre o trabalho na lavoura e as atividades na cooperativa. Formado em Administração pela Universidade de Passo Fundo (UPF), viu na vida do campo uma oportunidade de renda, liberdade e autonomia no trabalho.

— O bom de ser dono do próprio negócio é ser livre para ir e vir. Trabalhamos bastante, mas por algo que é nosso. Se estivesse em uma empresa batendo cartão neste momento, não poderia vir até a Expodireto conferir as novidades e aprimorar o trabalho na propriedade — afirma.

A opinião é compartilhada por Cristiano Formentini, 30 anos, de Braga, também no Noroeste. Se formou como técnico agrícola em Frederico Westphalen e decidiu seguir na propriedade. Veio para a feira com o objetivo de comprar máquinas melhores para propriedade de médio porte onde planta soja, milho e trigo.

— Cheguei à conclusão de que não teria um rendimento igual ao que tenho na propriedade se fosse empregado. Por isso, decidi continuar no campo — ressalta Cristiano.

Na Expodireto, adquiriu uma plataforma de milho nova. Já havia investido em um trator mais potente. O próximo passo é uma plantadeira maior:

— Estamos fazendo planejamento para aumentar a produtividade. A tecnologia está em primeiro lugar, e a agricultura de precisão é o futuro.

Willian Wilhelm tem só 17 anos, mas o entendimento de que a tecnologia é importante para ter um bom rendimento já está na ponta da língua.

— É preciso renovar. Viemos à feira para dar uma olhada em pulverizadores autopropelidos — diz o jovem, que trabalha com o pai em uma propriedade de 220 hectares em Gaurama, na região norte.

Dentro e fora do país

Entre os negociadores internacionais — são 74 países e 150 importadores —, a renovação também aparece. Khaled Smache, 34 anos, veio da Tunísia buscar parceiros para uma joint venture de produção e exportação de frangos para o norte da África. Pela primeira vez no país, trabalha em empresa de commodities e exportação:

— O Brasil é um dos principais produtores do mundo. Estamos procurando oportunidades para abastecer os países africanos e vimos no Rio Grande do Sul um forte mercado.

Khaled vê os gaúchos como pessoas organizadas, honestas, com vontade de fazer negócios, inteligentes e de visão.

— O brasileiro tem responsabilidade ambiental, o que é muito bom para o futuro da produção mundial — acrescenta o tunisiano.

Sucessão rural ainda é tabu

Apesar de toda a inovação tecnológica que tem mantido jovens nas propriedades, o tema da sucessão rural é considerado um tabu para as famílias. Líderes do setor afirmam que a saída para manter os jovens trabalhando no campo é abrir espaço para o diálogo dentro de casa.

— Poucos são os pais que debatem com os filhos sobre a importância de permanecer na propriedade. Por isso, temos de trazer este assunto do âmbito familiar para o das políticas — destaca o presidente da Emater,

Lino de David.

Além da família, o tema precisa ser discutido nas escolas, onde o jovem tem de ser preparado para a vida no campo. O dirigente, no entanto, reconhece que falta estrutura para motivar a juventude a permanecer no meio rural, como qualificação da energia, comunicações e estradas.

— Os jovens de hoje não são como os de 30 anos atrás. Antes, só tinha o trabalho na lavoura. Hoje, precisam de instrumentos como acesso à internet, notícias e outras tecnologias para se manter no campo — salienta.

Para o presidente da Organização das Cooperativas do Estado (Ocergs), Vergílio Perius, a permanência no meio rural depende da renda, e isso passa pela agroindustrialização das cooperativas. Um estudo da entidade com 24 cooperativas mostrou que as 12 que investiram em agroindústrias têm quase 6% a mais de margem de contribuição nos seus produtos em razão da valorização, além de empregar um número maior de trabalhadores.

— O jovem quer ficar no campo, só não fica porque não tem trabalho e renda. E para manter a produção precisamos dessa juventude nas propriedades e nas agroindústrias — analisa Perius.

Fonte: Zero Hora

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