Nova entidade de produtores busca guinada na citricultura

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Os produtores José Eugênio de Rezende Barbosa Sobrinho (esq.) e Roberto Jank Jr., que estão entre os fundadores da Unicitrus: esforços por uma "agenda positiva"

Em gestação há cerca de um ano e meio, a União de Produtores de Citrus (Unicitrus) saiu definitivamente do papel e agora parte para tentar ser a "liga" que falta para a consolidação do Conselho dos Produtores de Laranja e das Indústrias de Suco (Consecitrus), criado para harmonizar as conturbadas relações no segmento.

Liderada por grandes citricultores, mas aberta à participação de associados de todos os portes, a Unicitrus "debutou" institucionalmente na semana passada, quando obteve o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para participar do processo que deverá levar à aprovação do Consecitrus pelo órgão antitruste.

Esse aval derivou sobretudo do nível de representação amealhado pela nova entidade. Já fazem parte da Unicitrus algumas dezenas de citricultores com produção total de laranja da ordem de 30 milhões de caixas de 40,8 quilos – cerca de 10% da colheita média em São Paulo e no Triângulo Mineiro, que abrigam o maior parque citrícola do mundo e onde as principais indústrias exportadoras de suco se abastecem de matéria-prima.

"Queremos participar das negociações que têm potencial para mudar a situação do segmento. A laranja é um dos poucos produtos do agronegócio que não estão em ascensão, um dos poucos que não estão em um bom caminho. E acreditamos que é possível mudar esse cenário", diz Roberto Jank Jr., sócio da empresa agrícola Agrindus, que tem foco em leite e laranja, e presidente interino da Unicitrus. O empresário Lair Antonio de Souza pediu afastamento temporário do cargo.

Reunidas na Associação Nacional dos Fabricantes de Sucos Cítricos (CitrusBR), as maiores indústrias exportadoras de suco do país (Cutrale, Citrosuco e Louis Dreyfus Commodities) veem com bons olhos o fortalecimento da Unicitrus, já que duas das tradicionais entidades que representam produtores paulistas de laranja não aprovam a criação do Consecitrus nos moldes até agora definidos.

Atuantes na costura inicial do Consecitrus, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) e a Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus) passaram a se opor ao conselho e colaboraram para que seu efetivo funcionamento dependesse do sinal verde do Cade, que há mais de uma década investiga as indústrias sobre uma suposta formação de oligopsônio na compra de laranja.

Além de uma disputa fratricida pelo papel de líder dos produtores no Consecitrus, essas entidades desconfiam desde o início das reais intenções das empresas de suco para a criação do conselho – que prega uma transparência na divulgação de dados comparativos sobre a atividade que, para os críticos, poderão servir mais aos interesses das indústrias do que da cadeia como um todo.

Assim, o Consecitrus nasceu com apoio explícito apenas da Sociedade Rural Brasileira (SRB), que tem sua sede em São Paulo. Mas mesmo a SRB, como Faesp e Associtrus, têm dificuldades em reunir grupos expressivos de citricultores atuantes nas discussões em curso, e é esse espaço que a Unicitrus quer ocupar.

Tanto que, segundo Jank, a nova entidade pretende atrair mesmo produtores vinculados às demais associações. O citricultor interessado não precisará deixar Faesp ou Associtrus para se unir à Unicitrus, cujo processo de consolidação conta com o apoio dos consultores da Plataforma Agro – onde atua Marcos Jank, irmão de Roberto e ex-presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

"A Unicitrus não quer olhar para trás", diz Roberto Jank. Ele deixa claro que as investigações em curso sobre a atuação das indústrias e os incontáveis processos judiciais movidos por citricultores contra as indústrias serão concluídos em seus respectivos fóruns e que, independentemente dos resultados, o segmento ainda terá que trabalhar muito na busca de resultados melhores.

Com a demanda internacional por suco em queda há mais de uma década – e reflexos "baixistas" sobre os preços da commodity – multiplicaram-se as disputas na cadeia produtiva, que passa por concentração. No caso das indústrias, o cenário colaborou para a fusão entre Citrosuco e Citrovita, aprovada pelo Cade; no dos produtores, fez com que mais de 2 mil deixassem a atividade nas últimas safras, segundo o Cepea/Esalq. Restam cerca de 10 mil.

José Eugênio de Rezende Barbosa Sobrinho, do grupo Agroterenas e um dos líderes da Unicitrus, faz questão de afirmar que, diferentemente do que sugerem seus detratores, a entidade não está alinhada com as indústrias e não está contente com os preços recebidos pela laranja que produzem.

Apesar da atual onda de valorização do suco no exterior, novamente determinada por problemas na oferta da Flórida (que abriga o segundo maior parque citrícola do planeja), e não por uma reação da demanda, a caixa vendida no mercado spot de São Paulo ronda R$ 7, valor insuficiente para cobrir os custos mesmo de produtores considerados eficientes.

Barbosa Sobrinho destaca que, independentemente do porte do produtor, a Unicitrus buscará colaborar para a disseminação da profissionalização no campo, a partir de boas práticas de governança, gestão e administração de custos. E que, afora os parâmetros que serão criados no conselho para as sempre difíceis negociações de preços ao longo da cadeia, há outras questões vitais para a atividade que tornam o Consecitrus necessário.

Entre essas questões estão velhos desafios, como a conquista de novas frentes de atuação no exterior, investimentos para o desenvolvimento do mercado doméstico para o suco de laranja integral já pronto para beber e o combate a doenças como o cancro cítrico e o greening, que ampliaram os custos de produção.

No dia 10 de outubro, a Unicitrus promoverá um evento para debater o aprofundamento de suas regras de governança. Roberto Jank Jr. e José Eugênio de Rezende Barbosa Sobrinho afirmam que não continuarão à frente da entidade quando ela estiver consolidada e que no futuro próximo a presidência será ocupada por um profissional de mercado. Marcos Jank, da Plataforma Agro, informou que não presidirá a nova entidade.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes | De São Paulo

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