Nova embalagem deve valorizar as garrafas PET

Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

Masao Goto Filho /Valor/Masao Goto Filho /Valor
Marçon, da Abipet: se coleta seletiva não aumentar, recicladores vão usar resina virgem para continuar operando

Na superaquecida demanda por reciclagem de garrafas PET, a partir da qual o preço da matéria-prima reciclada se aproxima aos valores da resina virgem, o recente lançamento da embalagem "bottle-to-bottle" – produzida parcialmente a partir de garrafas PET recicladas pós-consumo – da Coca-Cola no Brasil promete mexer com as bases do mercado, hoje disputado por diferentes setores, principalmente o têxtil. "Queremos formar uma cadeia de valor para o material, garantindo sua aquisição no longo prazo, sem os riscos da variação cambial típicos das commodities", revela Rino Abondi, vice-presidente de tecnologia e logística. Para garantir a sustentabilidade do modelo, a estratégia é o apoio às cooperativas, além da parceria com empresas globais de reciclagem que chegam ao Brasil.

Produzida em Curitiba pela Spaipa, a nova garrafa começou a ser distribuída no Paraná e São Paulo, expandindo-se para os demais estados a partir de dezembro. No momento, a tecnologia está restrita às embalagens 2,5 litros, contendo 20% de PET reciclado. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o uso de até 50%. "A previsão é aumentar a produção inicial de 5 mil toneladas para 60 mil toneladas em 2014", informa Abondi, lembrando ser "difícil incorporar sustentabilidade sem quebrar barreiras".

"O objetivo é dar ao PET o mesmo status alcançado pelas latas de alumínio, cuja valorização contribuiu para o atual índice de reciclagem, superior a 95% no Brasil, recorde mundial", afirma Marco Simões, diretor de comunicação e sustentabilidade. Segundo ele, a empresa assumiu o risco dos preços atualmente altos do PET reciclado, na expectativa do desenvolvimento da coleta seletiva e de novos hábitos para separação do lixo reciclável nas residências, capazes de aumentar a oferta do material e, consequentemente, permitir maior equilíbrio nos preços. Até o fim da década, a meta é recolher 85% de garrafas PET para o novo uso industrial, com participação de cerca de 200 cooperativas.

A meta global do fabricante para 2020 é duplicar a atual produção, emitindo carbono em níveis inferiores aos registrados em 2005. Além de já ter reduzido na média 20% a quantidade de plástico e vidro das garrafas, o que significa menos custos e emissões, a estratégia é expandir o retorno das embalagens vazias. A substituição de resina virgem pela reciclada pode reduzir carbono em até 10%, de acordo com dados da empresa. "O propósito é contribuir para o índice nacional de reciclagem de PET aumentar dos atuais 56% para 70%, em quatro anos", anuncia Simões.

"A nova garrafa vai elevar os valores do material após o consumo", estima o consultor Julio Cesar Santos, da organização Doe Seu Lixo, do Rio de Janeiro. Hoje as cooperativas de catadores vendem o quilo do PET entre R$ 0,80 e R$ 1 para atravessadores, que por sua vez repassam para a indústria a cerca de R$ 1,80. O atual preço de mercado da resina virgem é de R$ 2,20/kg.

A cooperativa Rio Coop, que comercializa por R$ 1,60 o quilo de PET na capital fluminense, trava uma queda de braço com os intermediários. "No mercado aquecido, buscamos clientes que pagam mais", afirma o presidente José Luís Estácio, lembrando que o valor para o material, no ano passado, não ultrapassava R$ 1,10 o quilo. "Para evitar os riscos da oscilação de preços, as cooperativas precisam articular com agentes financeiros oficiais linhas de crédito para capital de giro", sugere André Vilhena, diretor do Compromisso Empresarial para Reciclagem.

Para Auri Marçon presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET, "se a coleta seletiva não aumentar, recuperando para as indústrias embalagens que estão indo para aterros, os recicladores buscarão resina virgem para continuar operando". A preocupação se justifica, porque o mercado para a reciclagem do material tem crescido exponencialmente no Brasil, no ritmo de novas aplicações industriais. "Há espaço para uma demanda 30% superior à atual", diz.

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