Nova base na Antártida deveria depender menos de energia fóssil, diz pesquisador

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Incêndio na Estação Comandante Ferraz destruiu 70% das instalações e deve ter começado na sala de geradores

O incêndio ocorrido no sábado na Estação Comandante Ferraz, base militar e científica do Brasil na Antártida, coloca o país frente ao desafio de construir uma nova infraestrutura para a pesquisa polar no continente antártico que seja menos dependente do combustível fóssil para funcionar. "É hora do tudo ou nada, temos que pensar em um maior aproveitamento de fontes de energia renováveis, como solar e eólica, no projeto de reconstrução da estação", diz o geocientista Francisco Eliseu Aquino, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O incêndio causou a morte de dois militares, que tentaram impedir a propagação do fogo, o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo, e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos. Segundo a Marinha, os corpos dos militares já foram transferidos para a base chilena Eduardo Frei, onde permanecerão até o seu transporte para o continente, na cidade de Punta Arenas, no Chile. Em seguida, serão trazidos para o Brasil.

A Marinha ainda informou que o militar ferido, o primeiro-sargento Luciano Gomes Medeiros, está internado no Hospital das Forças Armadas do Chile para observação e não corre risco de vida. Um avião Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira se encarregou de resgatar 41 pessoas da base. A chegada do avião estava prevista para a madrugada de hoje, depois de fazer uma escala em Pelotas (RS).

Segundo o geocientista Francisco Aquino, que esteve várias vezes na Antártida, os geradores eram a principal fonte de energia da estação brasileira. Foi na sala de geradores que começou o incêndio que destruiu 70% das instalações da estação. Aquino entende que, dentro do novo projeto da estação, pode se ampliar o uso de iniciativas de eficiência energética, algumas das quais já vinham sendo incorporadas. "Em janeiro, quando se completou 30 anos do programa antártico brasileiro, se inaugurou na estação um grupo gerador a base de etanol."

O pesquisador da UFRGS afirma também que, dentro das iniciativas de eficiência energética, a estação ganhou janelas maiores para aproveitar a luminosidade do verão dentro de um conjunto de remodelações pelas quais a base ganhou ao longo dos últimos anos. Ele cita também pesquisas remotas, fora da estação, que vem sendo feitas pelo Brasil no continente antártico, caso do Módulo Criosfera 1, situado a cerca de 600 quilômetros do Polo Sul. "O experimento do Criosfera 1 mostrou que quatro painéis solares eram suficientes para usar solda, computadores e até aquecer o ambiente se fosse necessário", afirma Aquino. O módulo também é equipado com instrumentos de geração eólica.

O pesquisador reconhece que, no inverno, a pesquisa e a manutenção de um ambiente maior, como o da Estação Comandante Ferraz, dependem do uso do combustível fóssil para funcionar, mas, mesmo assim, é possível repensar concepções em termos de fontes de energia no novo projeto, segundo o cientista. Ele estima que a nova base, com capacidade inicial menor, só poderá estar operacional em três anos. O ministro da Defesa, Celso Amorim, previu que a base será reconstruída em dois anos.

Aquino considera que os módulos de pesquisa não afetados pelo incêndio, como o de meteorologia e de monitoramento da atmosfera e da camada de ozônio, podem ser aproveitados, mas esses módulos dependem de geração de energia para funcionar. Para Aquino, os experimentos da área de biociências, como estudos com peixes em aquários, sofreram grandes perdas com o incêndio.

Jefferson Cárdia Simões, diretor do Centro Polar e Climático da UFRGS, considera que o incêndio comprometeu 40% do programa antártico brasileiro. "Foram afetadas principalmente as áreas de biociência, algumas pesquisas sobre química atmosférica, de monitoramento ambiental, principalmente sobre o impacto da atividade humana naquela região do planeta. Infelizmente, isso também representou uma perda enorme em termos de equipamentos. Ainda não podemos estimar, mas ultrapassa a casa de uma dezena de milhões de dólares", lamenta.

Segundo Simões, no entanto, o programa antártico continuará funcionando porque a estação, apesar de concentrar uma parte importante das pesquisas brasileiras, não era a única estação científica brasileira. Ele explica que, pelo menos metade dos pesquisadores, trabalha em navios de pesquisa ou em acampamentos isolados na Antártida. Além disso, há outros projetos como o do Criosfera. (Com Agência Brasil e Murilo Rodrigues Alves, de Brasília)

Fonte:  Valor | Por Francisco Góes | Do Rio

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