Notícias – Rural – Tecnologia blockchain facilita rastreabilidade de produtos agropecuários

Pecuária de corte já conta com os primeiros animais do RS registrados no sistema

Tecnologia de rastreamento garante origem de produtos agropecuários começa a ser usada no RS | Foto: Arte de Pedro Dreher sobre fotos de CP Memória

Tecnologia de rastreamento garante origem de produtos agropecuários começa a ser usada no RS | Foto: Arte de Pedro Dreher sobre fotos de CP Memória

O uso da tecnologia blockchain tem despertado o interesse do setor agropecuário. O sistema, baseado em uma rede descentralizada de computadores e considerado à prova de violações, é visto como promissor por garantir maior rastreabilidade e segurança para a cadeia alimentar e, segundo uma estimativa do Fórum Econômico Mundial, vai representar 10% do PIB mundial até 2027. Iniciativas que visam oferecer maior eficiência à produção e comercialização de grãos e de animais já estão em andamento, inclusive no Rio Grande do Sul. 
O assunto ganhou força com a popularização das criptomoedas. Em 2017, a IBM Brasil, junto com a BRF e a rede varejista Carrefour, lançou o projeto Food Tracking, com o objetivo de fazer o rastreamento de itens alimentícios por meio da blockchain (leia mais na página 2). A pecuária de corte já conta com os primeiros animais registrados por meio desta tecnologia no Rio Grande do Sul. Na última edição da Conferência Global sobre Inocuidade dos Alimentos, em março deste ano, no Japão, uma das conclusões foi que a blockchain, assim como o big data e a internet das coisas, é uma ferramenta poderosa para melhorar a segurança em cada passo da cadeia alimentar. 
A tecnologia blockchain está ligada ao conceito de redes descentralizadas. Quando alguém insere uma informação na plataforma, ela torna-se imutável. Uma cópia desta informação fica armazenada em milhares de nós espalhados por todo o mundo. “Uma pessoa mal intencionada teria de atacar esses milhares de nós. Isso é impossível de se fazer hoje”, explica o engenheiro de software Eduardo Makiyama, da empresa gaúcha Iconic. A credibilidade da tecnologia está baseada nesta premissa. Por isso, sua utilização é vista com grande potencial para o setor agropecuário, já que poderá armazenar informações detalhadas sobre diversos produtos comercializados. Segundo Makiyama, isso inclui informações sobre animais, como vacinas que fez e sua alimentação, e sobre grãos, como datas de plantio e colheita, agrotóxicos utilizados e diversos outros itens. “Com isso eu tenho um controle de rastreabilidade e de autenticidade garantindo a confiança e a transparência dos produtos”, resume Makiyama. 
A carência de acesso à internet no meio rural, ainda que o serviço tenha evoluído, não é empecilho para o desenvolvimento da blockchain no campo, já que, segundo os especialistas no tema, as informações podem ser coletadas offline a atualizadas quando o usuário estiver conectado. Makiyama observa que mesmo os pequenos agricultores podem disponibilizar informações sobre os seus produtos por meio da tecnologia. 
Experiências recentes envolvendo o transporte de grãos apontam, ainda, que o blockchain pode ser um aliado para minimizar os problemas de logística. O transporte de uma carga de soja feito pela Louis Dreyfus Company (LDC) para a China reduziu o tempo de espera de três meses para duas semanas. O contrato foi firmado por meio de uma plataforma desenvolvida para a blockchain, de modo que a carta de crédito teve os seus termos emitidos e confirmados pela plataforma. Da mesma forma, é emitida a comprovação do embarque da mercadoria. Isso implica em redução de taxas aduaneiras nos portos, de tempo para os despachos e de desperdício de alimentos. O grande trunfo, segundo analistas, é o fato de o sistema funcionar 24 horas por dia, sete dias da semana, independente de fuso horário. “As transações podem acontecer sem interrupções porque a infraestrutura está distribuída. No caso dos processos alfandegários é a mesma coisa. Essa sincronização das bases vai permitir que na hora em que a pessoa precise, a informação já esteja ali, disponível”, avalia o arquiteto de blockchain Fausto Vanin. 
O sistema financeiro também deu início ao uso da tecnologia. O Banco Central e outros órgãos fiscalizadores pretendem utilizar a plataforma para troca de informações. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou, no início de setembro, uma consulta pública em busca de componentes blockchain para o BNDESToken. O objetivo é identificar soluções para gestão de contas, acompanhamento de transações e associações de contas a CNPJs ou CPFs compatíveis com a tecnologia que utilize smart contracts integráveis. Segundo Vanin, a tecnologia pode agilizar o processo de concessão de crédito, inclusive para o meio rural. “O segmento agro tem um potencial muito grande, pois é um tipo de negócio que envolve uma série de partes interessadas e as relações de confiança e os montantes são bem significativos”, afirma. 
Uma das iniciativas em desenvolvimento pela organização OnePercent, da qual Vanin faz parte, está relacionada à transparência das informações de armazenamento de grãos em silo variável. A ideia é que um dispositivo inteligente colocado dentro do silo faça a coleta de informações de umidade e temperatura, por exemplo, e que elas sejam direcionadas para a blockchain, ficando à disposição dos clientes. “Esse compartilhamento rápido e transparente de informação é a principal característica da blockchain”, explica. 
O uso da blockchain no agronegócio é visto como promissor, mas também há indicações de cautela. O presidente da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão, Márcio Albuquerque, afirma que o potencial de utilização é grande, mas pondera que deve ser necessário algum tempo para que o setor identifique a melhor forma de aplicar a tecnologia. “A principal vantagem é que é uma tecnologia de registros distribuídos. Isso pode se aplicar na rastreabilidade, tanto vegetal quanto animal, eventualmente também na compra e venda de commodities”, observa. O especialista ressalta ainda que o custo desta tecnologia não é desprezível e que sua viabilidade econômica depende de uma adoção em massa. No caso da principal aplicação, que são as criptomoedas, o valor está relacionado à quantidade de estabelecimentos que aceitam este tipo de pagamento. “A rastreabilidade e a confiabilidade passam a ter peso quando a quantidade de usuários for significativa”, observa.

Aposta na novidade

Em maio do ano passado, o pecuarista Eduardo Borges de Assis recebeu uma proposta inusitada de um cliente. A oferta por uma novilha da raça Simental foi de 1 bitcoin, criptomoeda surgida em 2008 como resposta à crise do sistema financeiro tradicional. Na época em que a transação foi efetuada, a moeda virtual valia o equivalente a R$ 9 mil – hoje vale R$ 23 mil. O animal foi entregue durante a Expointer de 2017, o que, segundo Assis, garantiu ao comprador a “chancela” de uma das maiores exposições agropecuárias da América Latina, já que todos os animais passam por um exame de admissão antes de entrar no evento.
A repercussão da transação – considerada inédita até então – foi tamanha que o pecuarista, titular da Fazenda Santa Terezinha, em Jaquirana, começou a se interessar pela tecnologia blockchain. A Expointer daquele ano mal havia terminado e Assis começou a fazer cursos sobre o tema – foram cerca de 15 no total. Formado em Medicina Veterinária, com pós-graduação em Marketing Rural, o criador deparou-se com um mundo até então desconhecido, embora seja um entusiasta das novas tecnologias. O uso do blockchain teve início com a disponibilização dos registros genealógicos dos animais no sistema.
“O objetivo é fazer com que os clientes interessados nos animais tenham a rastreabilidade de tudo o que acontece na fazenda”, explica o pecuarista. Isso inclui informações como a alimentação e as vacinas que são administradas para cada animal. No caso da Fazenda Santa Terezinha, cerca de 85% dos animais vivem em campo nativo. Os outros 15% recebem uma suplementação de pastagem cultivada. Os animais portam microchips, o que ajuda na identificação de suas características específicas. A intenção de Assis é digitalizar os registros de todo o rebanho e disponibilizá-los no blockchain. A vantagem do sistema, segundo ele, é que as informações podem ser confirmadas pelos outros “nós”, ao mesmo tempo em que não pode mais ser alterada. Ou seja, quem colocar uma informação falsa “corre o risco de ser desmascarado”, alerta Assis.
Com clientes fora do Rio Grande do Sul, especialmente do Centro-Oeste, interessados na genética do gado europeu para cruzamento industrial, o pecuarista acredita que a nova tecnologia será um aliado nos negócios, já que a distância não será empecilho para que o comprador observe características do rebanho nos seus detalhes. Segundo o pecuarista, o blockchain demonstra ser uma tendência de futuro para o segmento, embora, na avaliação dele, a pecuária de corte apresente mais dificuldade de adaptação às novas tecnologias do que a pecuária de leite. “Não tem como fugir disso porque a tecnologia cada vez mais vai ajudar no manejo e vai tornar mais barato o custo de produção”, acredita.

O objetivo é fazer com que os clientes interessados nos animais tenham a rastreabilidade de tudo o que acontece na fazenda

O objetivo é fazer com que os clientes interessados nos animais tenham a rastreabilidade de tudo o que acontece na fazenda

Eduardo Borges de Assis, Pecuarista

Empresas já testam sistema

A cadeia de frango e suínos enxerga com boas perspectivas o uso do blockchain no setor produtivo. A BRF, gigante do setor, trabalha na elaboração de uma iniciativa voltada a esta tecnologia, porém não divulga maiores detalhes. “O blockchain vem elevar o nível de rastreabilidade que as empresas podem ter pela questão do tempo de resposta e precisão e também pela capacidade de poder permitir que ajam de forma proativa, controlando todo o ciclo”, afirma o chefe de Transformação Digital da BRF, Gabriel Ribeiro.
Um projeto-piloto foi colocado em prática no final do ano passado. A iniciativa partiu da preocupação em informar a procedência dos alimentos, por meio de uma parceria com a IBM e com o Carrefour. O projeto constituiu na disponibilização da rastreabilidade da linha de fatiados, possibilitando ao consumidor o acesso a informações como a origem do produto, etapas de transporte e temperatura, entre outros. A leitura dos dados ocorre a partir de um QR Code afixado na embalagem. Em caso de necessidade de um recall, por exemplo, a tecnologia garante maior agilidade na identificação e localização de cada lote.
A experiência foi colocada em prática na loja da varejista francesa no Shopping Eldorado, em São Paulo, e durou cerca de uma semana. De acordo com Ribeiro, foi bem sucedida e permitiu compreender o potencial da tecnologia para a sua implementação em escala maior. A experiência com blockchain integra a agenda da empresa voltada para atender aos padrões da chamada indústria 4.0, baseada no uso de tecnologias que visam aumentar a eficiência e a produtividade.

Fonte : Correio do Povo