Ânimo renovado para o plantio de trigo no Sul

Após anos de estabilidade, Paraná e Rio Grande do Sul deverão ampliar a área de cultivo de trigo na próxima safra. Os produtores dos dois Estados são responsáveis por cerca de 90% da colheita do país e agora veem na diversificação de mercados da Argentina uma oportunidade para ampliar as vendas e a rentabilidade. A aposta é na alta dos preços domésticos, diferentemente do que acontece hoje no front internacional.

"A Argentina colheu uma safra recorde, de 19 milhões de toneladas, mas conseguiu diversificar as exportações. Assim, o Brasil não verá o mercado inundado pelo trigo argentino como vem acontecendo nos últimos anos", diz Daniel Kümmel, presidente do Sinditrigo-PR, que representa os moinhos paranaenses.

O país vizinho ainda vende entre 5 milhões e 6 milhões de toneladas de trigo ao Brasil, mas esse volume, que já chegou a representar 90% das exportações argentinas do cereal, hoje equivale a cerca de 50% dos embarques, mesmo com a expectativa de o país bater recordes em 2018/19. Como a competição externa pelo trigo da Argentina está maior, a tendência é que os preços no vizinho permaneçam mais elevados, abrindo espaço para a produção nacional.

Dessa forma, estima a Safra & Mercado, a expectativa é que a área de cultivo no Paraná aumente 12% nesta safra 2019/20, que começará a ser semeada em junho, para 1,2 milhão de hectares. No Rio Grande do Sul, o crescimento poderá chegar a 14%, para 820 mil hectares. Somados os demais Estados produtores, a área plantada nacional deverá ocupar 2,3 milhões de hectares, avanço de 12%.

Se essa área se confirmar e o clima contribuir, projeta a Safras, a produção brasileira poderá chegar a 6,6 milhões de toneladas em 2019/20, um aumento de 27% em relação à temporada passada. "O fato é que o mercado do Sul do Brasil não funciona atrelado aos preços internacionais. Há uma liquidez interessante neste momento aqui, com 67 moinhos no oeste do Paraná precisando fazer sua programação em março e abril. Por isso os preços estão bons e incentivam o cultivo", diz Kümmel. A saca de 60 quilos de trigo de boa qualidade – PH 78 (a cada 100 quilos do grão para moagem são extraídos 78 quilos de farinha) – é negociada hoje por R$ 49 no oeste paranaense, ante um preço mínimo estabelecido pelo governo de R$ 36.

Outra questão que deverá permitir a expansão da área de semeadura no Sul é o adiantamento da colheita das lavouras de verão, que já está permitindo a semeadura de milho safrinha mais cedo e tornará viável a aceleração dos trabalhos com trigo.

"As áreas onde foram plantadas soja precoce em 2018/19 já foram colhidas e já estão com milho. Dessa forma, em alguns casos o milho safrinha poderá ser colhido em junho e julho, e será possível colocar o trigo em seguida. Os que optarem por semear só o trigo no pós-soja também terão uma janela muito boa para o plantio da próxima safra de soja", explica Carlos Hugo Godinho, engenheiro agrônomo do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Paraná.

O inconveniente é que os custos de produção do trigo são maiores que os do milho, e a cultura também é mais suscetível a fungos. Cálculos de novembro do Deral indicam que, no ciclo 2018/19, o custo de produção do trigo chegava a R$ 74,17 por saca, ante os R$ 42,69 do milho safrinha. "O milho também tem margem maior, com ganho de 27% sobre o custo variável, enquanto no trigo é de 11%", acrescenta Godinho.

Apesar disso, ele lembra que o Paraná tem potencial para plantar 5,4 milhões de hectares de trigo. E, se o dólar subir, elevando os custos de importação da Argentina, o incentivo aos produtores paranaenses para 2019/20 pode aumentar. "O dólar no patamar de R$ 4 segurou os preços do trigo nos últimos meses, mesmo com a chegada da grande safra da Argentina, e pode ser um incentivo para o cultivo na próxima temporada", diz o engenheiro do Deral.

Hamilton Jardim, presidente da Comissão do Trigo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), é mais otimista. No Expodireto, evento realizado na semana passada em Não-Me-Toque (RS), as indústrias relataram grande procura por sementes de trigo. A oferta feita atualmente pela indústria para troca da colheita futura por insumos estava, em média, a R$ 41 por saca, acima do preço mínimo de R$ 36 usado como base para o segmento.

"É um preço incentivador e, se levarmos em conta que a safra de verão foi remuneradora, o produtor está capitalizado para o inverno", diz Jardim. Ele também sustenta que há grande incentivo da indústria gaúcha e do governo para reduzir as importações. O Brasil consome 12 milhões de toneladas por ano e as importações somam 7,5 milhões. "Gastamos R$ 7 bilhões para importar trigo. Só esse valor já justificaria o incentivo e o aumento da produção".

O fato de o país não ser autossuficiente é culpa do clima, de acordo com Jardim. Com o tempo instável na época da produção de trigo, o Sul do Brasil não consegue entregar safras tão constantes como a Argentina. "A produção tritícola aqui é muito variável. Em 2013 foi boa, depois foi ruim por três anos, melhorou em 2016, foi regular em 2017 e péssima no ano passado. Enquanto isso, a Argentina apresenta estabilidade de colheita e tradição na cultura", diz.

Por Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor

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