Nem tudo são flores no reino da soja

Um grande sojicultor de Mato Grosso, que prefere o anonimato, empresta seu caso para mostrar que nem tudo são flores na principal cadeia produtiva do agronegócio brasileiro, ainda que, em geral, o cenário possa ser considerado bastante positivo. Ele optou por comprar no primeiro semestre os insumos para a safra 2015/16, cujo plantio começou em setembro, mas não tinha à disposição crédito oficial para tal. Recorreu a uma trading de peso e a um banco estrangeiro para engordar o caixa e se endividou em dólar, e recentemente foi abalroado pela disparada da moeda americana.

"Acabei criando um passivo em dólar que já subiu cerca de 40% com a disparada do câmbio", disse ele, que hoje deve US$ 3 milhões. Nas últimas décadas, não foram poucos os problemas provocados por apostas erradas de agricultores em relação ao comportamento do câmbio. E, diante de oscilações inesperadas e expressivas, os problemas costumam crescer em igual proporção. Informações coletadas junto a bancos e consultorias não apontam, no momento, para uma crise sistêmica, mas relatos de problemas pontuais se multiplicam.

Segundo esses relatos, os problemas mais graves estão fora da órbita dos grandes bancos que atuam no Brasil. Estão mais concentrados nos empréstimos fechados por produtores de grande porte do Centro-Oeste e do "Matopiba" (confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) com instituições financeiras menores, tradings e grandes empresas e revendas de insumos, principalmente defensivos. Em Mato Grosso, Estado que lidera a produção de grãos no país, estão na berlinda agricultores com áreas plantadas em geral superiores a 5 mil hectares.

Nessa categoria, o produtor encontra no crédito rural oficial apenas uma pequena parcela de suas necessidades de custeio e investimentos, por conta dos limites de tomada de recursos estabelecidos pelo governo, que buscam dar mais guarida aos pequenos e médios, cujas dívidas são concentradas em real. O produtor mato-grossense cujas dívidas chegaram a US$ 3 milhões com a guinada cambial tomou crédito com o dólar em cerca de R$ 2,80. Para honrar o que deve, torce para que seu "hedge natural", que é a venda da soja em dólar, funcione a contento. "Já vendi um quarto da soja que devo colher em 2015/16. Mas, por enquanto, tudo em real", diz ele.

A escassez de crédito oficial com juros mais vantajosos na praça na primeira metade de 2015, derivada do ajuste fiscal do governo, foi apenas um dos motivos que ajudaram a inflar a dívida em dólar dos produtores de grãos. De acordo com Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), alguns já arrastavam contratações de safras passadas, empregadas na compra de máquinas ou na melhoria do solo, enquanto outros viram o endividamento crescer em meio a tropeços no lado da receita.

Segundo Pereira, agricultores radicados em algumas regiões de Goiás e do "Matopiba" também vêm de dois anos de safras menores por conta de calor e seca. "E a falta de uma política agrícola [eficiente] de seguro agravou a situação de endividamento", avalia. Todo esse enredo, como não poderia deixar de ser, já fez soar o sinal de alerta entre os credores.

Com 20 revendas de insumos agropecuários no país, a SinAgro calcula que 15% de seus clientes estejam encrencados com o dólar e partindo para renegociações. Alguns deles querem depositar o valor da nota fiscal faturada com o câmbio mais barato, de meses atrás, enquanto outros pedem descontos de 5% a 10% no câmbio. Há os que se propõem a pagar o valor cheio, contanto que o revendedor parcele em até cinco anos a diferença do câmbio, para viabilizar seu fluxo de caixa. "Estamos discutindo dia a dia, mas é um pepino", afirma Marcos Vimercati, presidente da SinAgro, que tem sede em Primavera do Leste (MT). Na tentativa de contornar o problema, a empresa tem tentado estimular as operações de "barter".

O baixo patamar dos preços da soja na bolsa de Chicago, reflexo da oferta abundante da commodity, trouxe um agravante adicional, apesar da compensação derivada da alta do dólar. "Quem deve US$ 100 mil, precisava de 5 mil sacas de 60 quilos de soja para honrar seu compromisso no ano passado. Hoje, precisa de 6 mil sacas", compara Rui Prado, presidente da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato). Outro fator a pesar na balança é o aumento do custo de produção, boa parte atrelado ao dólar por ser o Brasil muito dependente de fertilizantes e defensivos importados.

O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) calcula que serão necessários R$ 3.353 para o plantio de um hectare de soja transgênica nesta safra 2015/16, o maior valor da história. Os gastos com fertilizantes estão 30% maiores que no ciclo passado, enquanto os defensivos estão quase 50% mais caros. Ainda assim, em geral as projeções de rentabilidade têm sido positivas, graças ao câmbio. "Mas, apesar de a alta do dólar ser boa porque aumenta nossa receita, do ponto de vista operacional nós só sentimos [concretamente] o custo subindo até agora", afirma Alex Utida, presidente do sindicato rural de Campo Novo do Parecis (MT).

E a situação pode piorar. Vimercati, da SinAgro, está bastante pessimista em relação ao próximo ciclo (2016/17). Segundo ele, as revendas de insumos trabalhavam com estoques elevados e, em muitos negócios, conseguiram oferecer um câmbio diferenciado este ano. Mas se os preços da soja continuarem entre US$ 8 e US$ 9 por bushel na bolsa de Chicago e o dólar ficar em torno de R$ 4, ele acredita que a "conta não vai fechar". Como investiram em maquinários, nas lavouras e em expansão nos últimos anos, diz o executivo, muitos agricultores estão menos capitalizados do que se imagina.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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