Nem ganho de mercado da BRF anima investidor

O azedume do mercado com o desempenho da BRF pode piorar hoje, com a divulgação dos resultados da companhia no quarto trimestre de 2017. Nem mesmo a estratégia para recuperar participação no Brasil, que começou a mostrar resultados, anima os investidores. Pelo contrário. Segundo analistas, o plano afetará a rentabilidade no curto prazo, alimentando uma espiral negativa com potencial para tumultuar ainda mais a relação entre os principais sócios da empresa brasileira.

A expectativa dos analistas das corretoras dos bancos BTG Pactual, Itaú BBA, J.P. Morgan e Santander é que a dona das marcas Sadia e Perdigão reporte, após o fechamento do mercado, lucro líquido entre R$ 100 milhões e R$ 238 milhões no quarto trimestre do ano passado. Embora seja um resultado melhor do que o visto no mesmo período de 2016, os analistas ressaltaram que a base de comparação é fraca. Nos últimos três meses de 2016, a BRF teve o pior resultado trimestral de sua história, com prejuízo de R$ 460 milhões.

As estimativas não consideram as provisões que a BRF deverá anunciar, em parte devido ao desbalanceamento de estoques por conta da Operação Carne Fraca. Como o Valor já informou, as provisões são "relevantes". Em meio aos rumores sobre as provisões, os papéis da BRF estão no pior patamar desde 2012.

Nesse cenário, os analistas Thiago Duarte e Vito Ferreira, do BTG, ponderaram, em relatório, que perdas com provisões e possíveis reclassificações em linhas do balanço não foram incorporadas em sua estimativa, que prevê lucro de R$ 117 milhões. De acordo com os analistas, é "impossível" estimar antecipadamente o impacto das provisões sobre os resultados.

Os analistas Antonio Barreto, Thomas Budoya e Gustavo Troyano, do Itaú BBA, também avaliam que os investidores sairão decepcionados com o resultado da BRF. "Acreditamos que a nova estratégia da companhia para ganhar participação de mercado vai se pagar no longo prazo, mas vai reduzir a rentabilidade no curto prazo e frustrar as expectativas", argumentaram.

A BRF recuperou participação no mercado brasileiro em 2017. Dados da consultoria Nielsen obtidos pelo Valor mostram que, de março a outubro, a fatia da BRF em produtos industrializados à base de carnes (como embutidos e frios) subiu de 36,8% para 40,1%. Na categoria de carnes congeladas, que inclui hambúrgueres e pratos prontos, a BRF passou de 38,1% a 40,3%.

Assim, a empresa reverteu parcialmente as perdas que vinha sofrendo nos anos anteriores devido à forte concorrência – sobretudo da JBS, dona da Seara -, e à recessão, que fez consumidores migrarem de categorias e marcas mais caras para itens mais baratos.

A crise vivida pela JBS por causa da delação premiada dos irmãos Batista também contribuiu para a recuperação da BRF, na medida em que a Seara reduziu investimentos em marketing. Entre março e outubro, as participações das marcas da JBS caíram de 17,2% para 16,1% em industrializados de carnes e de 32,2% para 30,7% em congelados.

Executivos de dois concorrentes da BRF disseram ao Valor que a estratégia mais agressiva da empresa afetará a rentabilidade da indústria como um todo. A pior fase, argumentaram, ainda virá ao longo de 2018, com os resultados da marca Kidelli, lançada pela BRF em janeiro.

Marca de combate voltada ao "atacarejo" e ao pequeno varejo, a Kidelli é 15% mais barata que a média do mercado. Para uma dessas fontes, a decisão da BRF de não comercializar produtos da Kidelli no grande varejo, para evitar "canibalizações" com Sadia e Perdigão, pode ser inócua. "Se ele me atacar no atacado, respondo no varejo", afirmou um dos concorrentes.

Os analistas do J.P. Morgan – assim como os dos Itaú BBA- avaliam positivamente a estratégia da BRF, apesar do reflexo negativo no curto prazo. Resta saber se os investidores, já desanimados por causa do desempenho dos últimos dois anos, terão paciência para colher os frutos da estratégia.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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