Negócios da BrasilAgro ‘amadurecem’

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"Agora temos uma história para contar", diz Piza, principal executivo da empresa

Desde que assumiu o comando da BrasilAgro, o executivo Júlio Piza se acostumou a não ter muito o que apresentar nas conferências com analistas de mercado após a publicação de balanços. Fundada em 2006, a empresa captou R$ 580 milhões na BM&FBovespa tendo em mãos apenas um plano e praticamente nenhum negócio capaz de gerar receitas. Não no curto prazo.

Essa realidade está mudando. Os R$ 394 milhões investidos na compra e desenvolvimento de terras agrícolas nos últimos sete anos estão em fase de maturação. Nesta safra, a empresa alcançou 72,6 mil hectares de área plantada com soja, milho, cana e pastagem, o equivalente a 60% de seus 123 mil hectares aptos para cultivo. Há seis anos, o plantio cobria pouco mais de 6 mil hectares.

Nos dois primeiros trimestres do ano comercial de 2013 (iniciado em julho de 2012), a companhia gerou receita líquida de R$ 111 milhões, 54% maior do que em igual período do ano passado, e um lucro antes de juros, impostos, amortizações e depreciações (Ebitda) de R$ 23 milhões. Na semana que vem, a empresa apresenta os números referentes ao trimestre encerrado em março.

"Antes não tínhamos resultados, até por isso nunca quisemos expor a empresa. Agora temos uma história para contar", diz Piza. É a contar essa história e tornar a BrasilAgro conhecida dos investidores – pessoas físicas e fundos – que o diretor-presidente da companhia tem se dedicado. Nesse sentido, nos últimos meses, a empresa intensificou encontros com gestoras de recursos, visitas monitoradas a fazendas e presença em eventos.

Parte dessa estratégia, a empresa lançou em novembro um programa de recibos de ações (ADRs) de nível II na bolsa de Nova York, algo que apenas empresas brasileiras do porte de Vale, Braskem, Bradesco, Embraer e Oi haviam feito. Com os papéis, passou a se submeter ao escrutínio da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês).

"Nossa meta é ser conhecido não apenas pelos investidores com foco na América Latina, mas com interesse em investir na agricultura como um todo. Daí a importância do carimbo da SEC". O executivo diz acreditar que, em alguns anos, os papéis da companhia vão ter mais liquidez em Nova York do que em São Paulo.

Piza diz que, em resposta a essas ações, a base de acionistas triplicou nos últimos dez meses, embora a liquidez seja modesta. Em abril, os papéis da companhia tiveram giro diário médio de apenas R$ 500 mil. Em comparação, as duas companhias de perfil semelhante listadas na bolsa, SLC Agrícola e Vanguarda Agro, movimentaram R$ 3 milhões e R$ 6,5 milhões, respectivamente.

Hoje, 39,6% das ações da BrasilAgro estão nas mãos de seu controlador – a argentina Cresud, que administra quase 1 milhão de hectares agricultáveis na América do Sul. As demais ações são livremente negociadas na bolsa. O fundo JP Morgan Whitefriars, o empresário Elie Horn e o Banco Fator detêm 10,5%, 5,6% e 5,3% dos papéis, respectivamente.

O CEO da BrasilAgro lembra que a agricultura ainda é um setor apenas marginalmente representado no mercado de capitais, o que dificulta a tarefa de atrair investidores. "É uma questão de educação mesmo, porque há meia dúzia de empresas agrícolas listadas no mundo, e a metade delas no Brasil".

O primeiro desafio é apresentar o setor como opção de investimento. O segundo é explicar as peculiaridades do modelo da BrasilAgro em relação aos de SLC e Vanguarda. "Somos uma empresa de desenvolvimento de terras. Nossa vocação é identificar áreas com potencial de transformação, investir em infraestrutura e tecnologia e rentabilizar esse investimento. A agricultura é o principal meio para isso, mas não é a nossa atividade-fim", afirma. Das 11 fazendas que adquiriu desde 2006, a BrasilAgro já vendeu três – outras duas áreas estão em negociação.

Em outubro, a companhia amealhou R$ 75 milhões com a venda de uma propriedade no Maranhão, o que significou uma valorização de 100% sobre o preço de compra e de 40% sobre o valor avaliado pela consultoria Deloitte em dezembro de 2010. O valor correspondeu, ainda, a 66% da receita obtida no primeiro semestre do atual ano comercial.

"Isso pode variar, mas a ideia é que dois terços do faturamento venham da venda de propriedades e apenas um terço da produção agrícola", afirma Piza. No ano passado, porém, a produção de grãos e cana-de-açúcar respondeu por mais de 90% da receita de R$ 156 milhões.

Em média, a BrasilAgro fica sete anos com uma fazenda, mas esse período pode variar de três a 12 anos, conforme o estágio de desenvolvimento da área. Depois, a propriedade, ou parte dela, é colocada à venda. O CEO refuta, porém, que a BrasilAgro faça especulação imobiliária.

"Nosso estoque de terras é proporcional à nossa capacidade de desenvolvimento. No Brasil, terra tem de ser posta para produzir, tem de cumprir uma função social. Isso significa colocar capital em risco, aplicar tecnologia, desenvolver aptidões, quebrar paradigmas", diz.

Ele enfatiza que, desde o início das operações, a BrasilAgro construiu mais de 1,3 mil quilômetros de estradas internas, 75 quilômetros de ramais de energia e quase 19 mil metros quadrados de armazéns, alojamentos, refeitórios, casas e escolas. "Levamos desenvolvimento e nos orgulhamos disso", afirma o executivo

Ainda em defesa do modelo, Piza diz que o avanço da infraestrutura permitirá uma maior desconcentração da propriedade rural em áreas remotas como o cerrado piuiense, hoje ocupadas basicamente por grandes grupos empresariais.

"Daqui a dez anos as fazendas vão diminuir de tamanho naturalmente. Com o passar do tempo, a região começa a ficar muito mais amigável para o médio produtor. A infraestrutura chega, você tem variedades mais adaptadas, as multinacionais de sementes e defensivos se consolidam e o número de potenciais compradores do seu produto aumenta, assim como a rede de serviços"

Piza garante que o modelo de aquisição de terras para o desenvolvimento agrícola ainda está longe do esgotamento e não se restringe à ocupação de novas fronteiras, como o Piauí e o Maranhão. Segundo ele, o desenvolvimento de novas tecnologias e os investimentos em logística podem abrir um novo espectro de possibilidades para a soja e o milho no Brasil.

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Fonte: Valor | Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo

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