Negócio entre Marfrig e JBS "transfere" alavancagem

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
Da esquerda para a direita, Sergio Rial, da Marfrig, Wesley Batista, presidente da JBS, e Gilberto Tomazoni, que comandará a Seara, no anúncio do negócio

Alívio e fôlego para a Marfrig, desafio e incerteza para a JBS. Esse parece ser, num primeiro momento, o resultado da operação, anunciada ontem, na qual a Marfrig vendeu a Seara Brasil para a gigante mundial de proteína animal. Enquanto a JBS assumirá uma dívida de R$ 5,8 bilhões – o valor total da operação – e voltará a flertar com níveis de alavancagem considerados desconfortáveis pelo mercado financeiro, a Marfrig finalmente terá sossego para tocar as operações com aquela que parece ser a melhor estrutura de capital pelo menos desde seu IPO.

A operação, que ainda precisa passar pelo crivo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e também inclui a Zenda, negócio de couros da Marfrig, reduzirá o endividamento líquido da Marfrig para menos de R$ 4 bilhões, disse ontem o futuro CEO da empresa, Sergio Rial, durante entrevista para anunciar a operação. No fim do primeiro trimestre, a dívida líquida da companhia era de R$ 9,8 bilhões.

No mercado, estima-se que a venda da Seara Brasil fará com que o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) da Marfrig caia das atuais 4,4 vezes no fim do primeiro trimestre para menos de 3 vezes. Segundo uma instituição financeira, que pede o anonimato, o índice deve recuar para algo em torno de 2,3 vezes no fim deste ano. Se confirmada, seria a menor relação pelo menos desde o ano de 2007, quando a empresa abriu o capital. De lá para cá, o menor índice de alavancagem da Marfrig foi de 2,6 vezes no fim de 2009, segundo a Economática.

Para a JBS, que alcançará um receita anualizada de R$ 100 bilhões com a Seara Brasil, a aquisição marca a interrupção da trajetória de desalavancagem que a empresa iniciou em 2012. A relação entre a dívida líquida e o Ebitda da companhia passou de 4,3 vezes no fim de primeiro trimestre de 2012 para 3,4 vezes no mesmo intervalo deste ano. Agora, a expectativa de analistas é que a alavancagem da JBS tenha um repique no primeiro momento, atingindo cerca de 3,5 vezes no fim do ano.

O próprio presidente da JBS, Wesley Batista, admitiu, ontem, que a alavancagem vai subir "no primeiro momento", mas insistiu que o alta do endividamento, por conta da aquisição da Seara Brasil, não altera a política de desalavancagem da companhia.

De qualquer forma, a preocupação dos investidores com a elevação do endividamento da companhia se refletiu na BM&Bovespa ontem. As ações da JBS recuaram 6,45% e no fim do dia, a Moody’s colocou o rating de crédito da JBS em revisão para possível rebaixamento. Já a decisão da Marfrig de melhorar sua estrutura de capital agradou ao mercado, e as ações da empresa subiram 6,31% ontem.

De acordo com Sérgio Rial, a operação com a JBS reduz o "endividamento bancário da Marfrig a praticamente zero". Do valor de R$ 5,85 bilhões em dividas que a JBS vai assumir da Marfrig, 65% são em dólares e 35% em reais. A dívida, com vencimentos de 2013 até 2017, está concentrada em bancos brasileiros. Como a JBS também tem operações com esses bancos, será feita uma transferência das dívidas da Marfrig para a companhia da família Batista.

Wesley Batista disse que a JBS pode tentar negociar com bancos uma melhora do perfil da dívida assumida da Marfrig. Contudo, afirmou que a empresa não tem necessidade de emissão de ações ou de dívida neste momento para financiar a compra da Seara. "Estamos otimistas com a capacidade de geração de caixa do grupo. É uma operação de R$ 5,85 bilhões. A JBS absorve isso com bastante confiança de que rapidamente conseguiremos desalavancar", afirmou Batista.

Para a Marfrig, a venda da Seara Brasil significou a redução das dívidas, mas também uma diminuição expressiva da companhia, que ficará um terço menor. Segundo Sérgio Rial, o faturamento global cairá de R$ 28 bilhões para cerca de R$ 16 bilhões. Os negócios internacionais da Marfrig não serão afetados pela venda da Seara Brasil. "A plataforma internacional se beneficia de uma estrutura de capital mais forte", disse Rial, que vendeu a Seara para a Marfrig em 2009, quando era presidente da Cargill no Brasil. Atualmente, a Seara Foods – a divisão de aves, suínos e processados da Marfrig – comanda as operações da Keystone Foods, que atende clientes como o Mc’Donalds, e a Moy Park, processadora de aves na Europa.

Segundo Rial, a venda da Seara Brasil para a JBS resolve os problemas de endividamento da empresa e "não há necessidade de vender outros ativos neste momento". Ele reconheceu que a necessidade de vender a Seara Brasil é resultado da política agressiva de aquisições nos últimos anos, que "acabaram tirando o foco" da Marfrig.

A estratégia agressiva de aquisições foi capitaneada por Marcos Molina, fundador e ainda CEO da Marfrig, que ontem não compareceu ao anúncio do negócio entre as duas empresas.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujo braço de participações está no capital tanto de Marfrig quanto de JBS, divulgou nota ontem avaliando o negócio como positivo, "A transação, que não implicará aporte de recursos por parte do banco, deve agregar valor às companhias, beneficiando o setor como um todo", disse o comunicado do BNDES.

O banco informou que aguarda o detalhamento da operação – que não altera as participações acionárias da BNDESPar nas empresas, de 19,9% na Marfrig e 23% na JBS – para se manifestar formalmente nos termos dos acordos de acionistas.

Além de participar do capital da Marfrig, o BNDES também detém debêntures obrigatoriamente conversíveis da empresa. De acordo com Sérgio Rial, as debêntures do BNDES não participam da transação e não são consideradas dívida, mas sim "equity". Em 2010, o banco comprou R$ 2,5 bilhões em debêntures obrigatoriamente conversíveis da Marfrig.

Questionado ontem, Rial não comentou em quanto a conversão final dessas debêntures em ações, programada para 2015, diluirá o controle da Marfrig. A conversão das debêntures pode representar uma fatia bastante relevante na participação da empresa. Se a Marfrig não aumentar de tamanho ao longo dos próximos anos e as ações não subiram de maneira consistente, o BNDES poderá ser o maior acionista com a conversão das debêntures. (Colaboraram Rafael Rosas, do Rio, e Fernando Lopes, de São Paulo)

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Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha e Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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