ÍNDIOS DEFENDEM DIÁLOGO

Estado classifica como inadequadas as prisões durante reunião de conciliação. PF reforça acerto

O diálogo acompanhado de uma solução para o problema da demarcação de terras está sendo defendido pelo presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Grande do Sul (Feorgi), Zaqueu Kaingang, que reúne 17 entidades representativas de cerca de 40 mil índios em 86 municípios no Estado. No sábado, após reunião com lideranças indígenas na Capital, ele pediu a suspensão de viagens para Faxinalzinho de centenas de índios que estariam se deslocando de ônibus para apoiar a comunidade de Votouro-Kandóia, após a prisão do cacique e de outros quatro pela Polícia Federal (PF) na sexta-feira. A intenção é evitar o agravamento da situação. Ele viajou para Faxinalzinho e disse confiar na segurança pública estadual para manter a tranquilidade na região. E revelou que uma reunião deve ocorrer nesta semana, com a participação do governador Tarso Genro. E espera ainda que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, venha ao RS antes do dia 22, quando serão debatidas as demarcações em Brasília.

Após as prisões, Kaingang propôs a ‘paz no campo’ e disse que o pequeno agricultor e o indígena não estão em conflito apesar da morte de dois agricultores em 28 de abril. Para ele, um fato isolado. ‘Existem instituições interessadas em que a situação não seja resolvida, inclusive de cunho político-eleitoreiro’, advertiu. ‘Nunca nos cansamos do diálogo desde a Constituição de 1988. Queremos que a sociedade gaúcha fique sabendo que nós indígenas e pequenos agricultores não estamos de briga’, acrescentando que ‘ninguém resolve nada com violência’. De acordo com o presidente da Feorgi, quatro áreas estão prontas para serem demarcadas no Estado, dependendo somente de portaria federal. Outras 13 precisam entrar no processo.

No sábado, os cinco indígenas presos temporariamente foram transferidos para a Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas, como medida de segurança. ‘A Polícia Federal foi infeliz com as prisões neste momento’, avaliou Zaqueu Kaingang, referindo-se à detenção durante uma reunião de conciliação em Faxinalzinho. Faltando um mês para o mundial de futebol, a Articulação Nacional dos Comitês da Copa e o Comitê Popular da Copa de Porto Alegre também criticaram a PF.

Contrariedade também no governo estadual. Em nota conjunta, o secretário de Desenvolvimento Rural, Elton Scapini, e o chefe de Gabinete do Governador, Ricardo Zamora, classificaram como inoportuna a ação da Polícia Federal e garantiram que suspeitas de que o Estado teria participado de uma armação para a detenção dos índios são mentirosas e irresponsáveis e têm como único objetivo fomentar o conflito e aumentar a tensão na cidade. Eles disseram terem sido surpreendidos com a ação da PF durante encontro que poderia resultar numa pacificação, no retorno às aulas e na desobstrução das estradas. ‘Do ponto de vista da solução do problema, a ação, realizada durante a reunião, revelou-se totalmente inadequada, já que interrompeu um momento muito importante de diálogo e construção de propostas que pacificariam o município e garantiriam o direito das duas partes’, escreveram em comunicado divulgado à imprensa. Scapin e Zamora reafirmaram que a demarcação de áreas indígenas é atribuição exclusiva da União e esperam que o Ministério da Justiça se responsabilize pela retomada do diálogo e pela busca da solução.

Já o superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, Sandro Caron, classificou como correta a ação que culminou com a prisão de cinco indígenas em meio a reunião. Segundo ele, os mandados judiciais de prisão temporária foram cumpridos no encontro em função do baixo número de presentes no local naquele momento.

Fonte: Correio do Povo

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