Índices altos de reciclagem contrastam com permanência de lixões

A quantidade de lixões a céu aberto que poluem, causam doenças e espantam turistas em muitas cidades brasileiras esconde uma realidade que parece paradoxal: apesar de quase 40% dos resíduos urbanos irem para esses vazadouros e outras áreas inadequadas e de apenas 14% dos municípios fazerem a coleta seletiva, o país registra hoje índices de reciclagem que se aproximam, e às vezes até superam, os de países ricos para o caso de algumas embalagens, como latas de alumínio, caixas de suco e leite e garrafas PET.

Analistas costumam associar esse quadro à situação de pobreza que leva às ruas grandes contingentes de catadores em busca de renda. No entanto, com o crescimento econômico, novos hábitos de consumo e inovação, ganha destaque uma explicação mais relacionada às forças de mercado do que aos problemas sociais. "A criação de demanda, com maior absorção de materiais recicláveis pela indústria, é o principal fator que hoje influencia os índices", diz Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET.

No Brasil, o setor recupera 58,9% das embalagens, o triplo do percentual de duas décadas atrás, à frente de países europeus como Inglaterra, Itália e Portugal. O índice brasileiro é superior ao dobro do americano. E alguns países desenvolvidos que reciclam mais, como o Japão, com 80% de taxa, têm poucas indústrias recicladoras e são obrigados a exportar o resíduo para nações emergentes, principalmente a China.

Hoje existem no país mais de 400 recicladoras de PET, número que nos últimos 15 anos teve aumento expressivo no rastro do desenvolvimento de novas aplicações industriais para o que antes era despejado em aterros. A história começou quando a Rhodia, tradicional fabricante de fibra de poliéster que iniciava a produção de PET no Brasil, se preocupou com os reflexos de regulações sobre descarte de embalagens que surgiam no exterior. O engenheiro José Trevisan, responsável pelo primeiro projeto de reciclagem na multinacional, é hoje dono de três fábricas que consumem mais de 2,5 mil toneladas de matéria-prima reciclada, inclusive uma unidade que processa garrafas plásticas pós-consumo para produzir novas.

A atividade movimenta R$ 1,6 bilhão por ano, tendo a indústria têxtil como principal consumidor. No total, 30% do poliéster para tecido vem de garrafas recicladas e há potencial para esse consumo dobrar. Diante da demanda crescente, após oito anos o preço da matéria-prima reciclada igualou-se ao da resina virgem proveniente do petróleo, antes 45% mais cara.

Antes mesmo de uma definição sobre o modelo de logística reversa de embalagens, exigência da nova lei de resíduos ainda em negociação entre setor produtivo e governo, 31% das embalagens longa vida são recicladas no Brasil. O índice cresce entre 6% e 7% ao ano, situando-se acima da média mundial, de 22%. Com as ações previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos, a expectativa é atingir 36% até 2015. "Pode ser até maior, se as prefeituras efetivamente aumentarem a coleta seletiva", afirma Fernando von Zuben, diretor de meio ambiente da Tetra Pak.

O crescimento tem como pilar o esforço de inovação empreendido nos últimos anos pelo fabricante no sentido de desenvolver a cadeia produtiva para viabilizar novas aplicações. Hoje 20 fábricas produzem cerca de 100 mil telhas por mês a partir da mistura de plástico e alumínio, contidos na estrutura das caixas de suco e leite. O material é também utilizado para fazer pallets. As fibras de papel retiradas das embalagens vão para fábricas de papelão e papel reciclado. O valor do papelão ondulado, empregado na fabricação de caixas, está mais atrativo em função do aumento da cotação da celulose no mercado internacional. A tendência faz melhorar os preços das embalagens longa vida pós-consumo, que passou de R$ 340 para R$ 450 a tonelada.

O valor das commodities também interfere na reciclagem das latas de alumínio, a mais concorrida embalagem entre os catadores. O índice de reciclagem no Brasil é de 98,3%, o maior do mundo. Com preço de US$ 1,8 mil a tonelada, conforme cotação da Bolsa de Londres do dia 30 de setembro, a venda da sucata após o consumo das bebidas sustenta 130 mil famílias no Brasil.

"A maior parte do material é recolhido por catadores e, sem eles, jamais atingiríamos esse índice", diz Renault Castro, diretor executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas). "As condições de trabalho e de vida dessas pessoas preocupam", ressalta o diretor. Para o setor produtivo há vantagens ambientais e econômicas. O uso da sucata economiza 95% de energia necessária à produção a partir do alumínio primário.

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Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

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