Nada se perde nos processos da Raízen

Claudio Belli/Valor

João Alberto Abreu, vice-presidente executivo de Etanol, Açúcar e Bionergia da Raízen: visão de "economia circular"

Etanol, açúcar e bagaço de cana como fonte para geração de energia não são os únicos produtos que movem o avanço da Raízen Energia. A joint venture entre Cosan e Shell, que faturou R$ 14,8 bilhões na última safra, começa neste mês a erguer os primeiros tijolos de uma estratégia que visa a aproveitar todos os resíduos do processo agroindustrial para produzir eletricidade e biometano e incrementar suas receitas.

Com investimentos previstos de R$ 153 milhões, a Raízen começa neste mês a construir a primeira usina elétrica de grande escala do país movida a biogás, ao lado de sua planta sucroalcooleira localizada no município de Guariba, no interior paulista. Para a empreitada, a companhia formou uma joint venture, na qual tem 85% de participação, com a empresa de bioenergia GEO Energética, que já opera no Paraná uma usina elétrica a biogás de pequena escala, também ao lado de uma unidade de açúcar e etanol.

Para chegar à geração de eletricidade, a nova planta da Raízen começará utilizando as quantidades monumentais de matéria orgânica que hoje saem do processo produtivo da usina de cana e são usadas apenas como adubo nos canaviais, dado seu alto teor de potássio. Isso continuará acontecendo, mas primeiro a matéria orgânica passará por um processo industrial que a tornará fonte de energia elétrica.

"Isso se encaixa em nossa visão de economia circular, em que se usa os subprodutos. Outro exemplo na mesma linha é o etanol de segunda geração, feito a partir da biomassa que já está ali [no campo]", afirmou João Alberto Abreu, vice-presidente executivo de Etanol, Açúcar e Bionergia da Raízen. A iniciativa também está alinhada à estratégia da Raízen de abrir o leque de atuação em energia, como indicou a recente criação, pela companhia, de uma joint venture para comercializar eletricidade.

Na unidade de biogás, as impurezas sólidas derivadas da purificação do caldo de cana (conhecidas como "torta de filtro") e a vinhaça, líquido que sobra da destilação do etanol, serão mantidas em "piscinões" (biodigestores) e produzirão metano e gás carbônico, que compõem o biogás. Em seguida, esse biogás também passará por um processo de purificação e depois abastecerá os geradores. Parte desse gás ainda poderá ser utilizada para produzir biometano (com 95% de metano), que é um potencial substituto do gás natural que abastece veículos (GNV).

Inicialmente, a planta de biogás da Raízen produzirá apenas energia elétrica, mas a perspectiva é, mais adiante, ampliar seu escopo para a produção do biometano. Para a geração de 1 megawatt (MW) no modelo da planta que está sendo erguida, são necessários 9 mil toneladas de "torta de filtro" e 100 milhões de litros de vinhaça, gerados para a produção de cerca de 8 milhões de litros de etanol.

O projeto começou a sair do papel em 2016, quando a Raízen acertou a venda de eletricidade tendo o biogás como fonte em leilão do tipo A-5 realizado pela Aneel, que prevê o início da entrega da energia em 2021. Foi acertada a venda de 14 megawatts (MW), mas a usina de Guariba terá capacidade instalada de 21 MW. Existe potencial, portanto, para a empresa exportar à rede 138 mil MWh ao ano.

Mas os planos nasceram ao menos dois anos antes, quando a companhia começou um "namoro" com a Geo Energética para estabelecer a parceria. "Já se fala de biogás de vinhaça no setor faz muito tempo, mas essa combinação com a ‘torta de filtro’ é uma novidade no mundo", ressalta Alessandro Gardemann, presidente da GEO Energética. A vantagem de acrescentar os resíduos sólidos ao processo é não depender apenas do período da safra de cana.

"Armazenar a vinhaça [para a entressafra] é antieconômico, porque a quantidade é muito grande e a energia, pequena. Já a torta, por ser sólida, ocupa menos espaço e tem mais energia. Isso permite geração de energia 365 dias por ano", diz ele. Por demandar uma matéria-prima que já está disponível, replicar esse investimento está no radar da Raízen, a depender do sucesso da empreitada inicial.

"Precisamos garantir que os resultados operacionais e financeiros estejam de acordo com nossas expectativas. Sendo atingidos, planejamos nosso próximos passos", afirma João Alberto Abreu. Mas a companhia está confiante.

Considerando a receita garantida com a comercialização de energia para o leilão e outras receitas, como a venda da energia no mercado livre, a expectativa é faturar R$ 40 milhões ao ano com essa planta. O investimento deverá oferecer uma taxa de retorno "de dois dígitos" e deverá se pagar em sete anos, afirma o executivo. Do total a ser investido, 80% será financiado pelo BNDES, com prazo de dez anos e três anos de carência.

Os ganhos da Raízen com a usina de biogás ainda poderão ser potencializados se a companhia enveredar pela produção de biometano, que demandará aporte adicional para a compressão do gás. O horizonte ideal, segundo Abreu, é utilizá-lo para abastecer tratores e colhedoras de cana, no lugar do diesel – que, atrelado às cotações do petróleo e ao dólar, tem peso expressivo nos custos das usinas. "Para cada metro cúbico de diesel substituído por gás, gastaríamos 50% a menos", exemplifica.

Além disso, essa substituição reduziria a pegada de carbono do processo produtivo do etanol da Raízen Energia, o que a credenciaria a comercializar mais certificados de biocombustíveis (CBios) que serão negociados quando o RenovaBio estiver em operação. A empresa estima que, se toda a frota de tratores e caminhões que transportam a cana da usina sucroalcooleira de Guariba fosse adaptada e todo o consumo migrasse para o biometano, a pegada de carbono do etanol da unidade seria 20% inferior à atual.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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