Muitas uvas, muitos lugares, muitos projetos

Segundo o Cadastro Vinícola divulgado pela Embrapa em 2017, são cultivadas 138 variedades no Rio Grande do Sul, entre americanas e vitis vinífera. No segmento de uvas destinadas à produção de vinhos brancos, a chardonnay é a campeã, utilizada em vinhos tranquilos (como se chamam os vinhos que não possuem gás) e espumantes. Nas tintas, a caber-net sauvignon ainda domina, seguida pela merlot.

Com o tempo, porém, outras variedades têm se destacado por sua adaptação ao território: cabernet franc, tannat, e tempranillo, entre as tintas, e riesling itálico, entre as brancas, capturam a atenção dos enólogos. A onipresente cabernet sauvignon vai aos poucos perdendo espaço, especialmente na Serra Gaúcha, onde nunca se adaptou bem em função de seu ciclo mais longo de maturação.

As muitas cepas encontram solos diferentes para florescer. Aos poucos, vai-se descobrindo mi-crorregiões distintas dentro do Rio Grande do Sul capazes de revelar vocações inesperadas para diferentes tipos de vinho. A Serra Gaúcha, que ainda concentra o maior número de vinícolas, é agora desmembrada em pequenos terrroirs, cada um com um talento diferente. Pinto Bandeira, por exemplo, faz os melhores espumantes do Brasil.

Os tintos de Monte Belo surpreendem pela elegância. O merlot do Vale dos Vinhedos está cada vez melhor. Mas não é só de Serra Gaúcha que vive um aficionado pela bebida. Além das qualidades da Campanha, outras partes do Rio Grande do Sul tornam-se referência em viticultura. Os Campos de Cima da Serra, cujos melhores brancos lembram os icônicos Cha-blis, e a Serra do Sudeste, que tem 96% de seus vinhedos plantados com vitis vinífera, são exemplos dessa diversidade.

Diferentes projetos germinam em meio a essa variedade. No Noroeste gaúcho, quase na fronteira com a Argentina, uma vinícola quebra a monotonia dos campos cobertos de soja. Aproveitando um solo basáltico de relevo ondulado e o clima quente e seco no verão e muito frio no inverno, a Weber descobriu, nos anos 2000, que Crissiumal também é terra de vinho.

"Uma das principais características que o terroir aporta nos nossos vinhos é boa acidez. Os vinhos tintos, mesmo sendo colhidos com a uva bem madura, ainda apresentam boa acidez, o que é importante para a guarda. Também é um fator muito interessante no caso dos espumantes, já que a acidez está diretamente ligada ao frescor do produto", explica a enóloga e sócia do empreendimento, Taciana Weber.

Para as cerca de 15 mil garrafas anuais, a Weber cultiva 10 variedades, entre elas algumas pouco conhecidas como as tintas marselan e teroldego e as brancas moscato poloski e moscato alexandria. Além dos 20 hectares de vinhedos, a Weber recebe visitantes na cantina onde o eno-turismo é, ou era, até antes da pandemia, a principal forma de divulgação dos produtos.

E se você imaginasse uma vinícola dentro de Porto Alegre, na zona mais urbana da cidade, no bairro Chácara das Pedras? Sim, isso existe. A Bodega Ruiz Gas-taldo é a expressão das imensas possibilidades que recém começam a ser descobertas no universo do vinho gaúcho. Para a primeira safra, em 2016, Eduardo Gastaldo, o fundador, subiu a serra com uma caixa d"água de 500 litros na carroceria de uma F-250 para trazer 400 quilos de uva, que foram vinificados no galpão de sua casa, na Capital.

Desde então, ele aprimora o transporte da matéria-prima e os métodos de vinificação, para oferecer ao público uma experiência diferente e surpreendente. "A fermentação alcoólica iniciou dentro da caçamba. Quando terminou essa primeira etapa, bombeamos para a bodega e ali começou o amadurecimento. O vinho ficou pronto no final de 2017, mesmo ano em que nasceu meu primeiro filho. Por isso, o rótulo chama-se João Pedro", relembra Eduardo.

A primeira safra não chegou a 400 garrafas. Em 2019, a produção foi de 2 mil garrafas e, nesse ano, a expectativa é colocar no mercado algo perto de 3 mil unidades. O estilo de vinificação é inspirado, segundo o fundador, nos vinhos do velho mundo, menos alcoólicos, com acidez presente e taninos macios e equilibrados.

Com o conceito de bodega urbana, Eduardo e a família recebiam visitantes – antes da pandemia – para experiências enológicas, como degustações, no anexo da casa que se transformou na vinícola.

Seus rótulos são vendidos em algumas lojas especializadas de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. "Comecei a gostar de vinho em função da minha esposa, mas depois descobri que tenho a bebida na história da minha família. Meu avô, imigrante, plantava uva e fazia vinho aqui na Independência.As possibilidades são inúmeras, estamos explorando uma delas. Por que não fazer vinho em Porto Alegre?", questiona Eduardo.

Fonte: Jornal do Comércio

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