Mudança no óleo diesel estimula plantio da canola no Rio Grande do Sul

A área cultivada com a oleaginosa no atual ciclo deve registrar recorde de 50 mil hectares

por Joana Colussi

16/06/2014 | 06h02

Mudança no óleo diesel estimula plantio da canola no Rio Grande do Sul Diogo Zanatta/Especial

Índice de biodiesel no diesel passará de 5% para 6%, em julho, e chegará a 7%, em novembroFoto: Diogo Zanatta / Especial

No topo da produção de biodiesel do país, o Rio Grande do Sul deverá ter parte da ociosidade na indústria, neste ano em torno de 50%, reduzida pelo aumento do percentual adicionado ao óleo diesel. O índice passará dos atuais 5% para 6%, em julho, e chegará a 7%, em novembro. Ainda que tímido, o incremento na mistura ampliará o mercado de óleo de soja, principal matéria-prima do biocombustível. A reboque dessa mudança, um grão ainda coadjuvante nas lavouras gaúchas ganhará mais espaço no campo: a canola.

A área cultivada com a oleaginosa no atual ciclo deve registrar recorde de 50 mil hectares (quase o dobro do ano passado), conforme a Associação Brasileira de Produtores de Canola (Abrascanola). Com até 38% de óleo, o dobro do teor da soja, o grão ainda é pouco utilizado para a produção de biocombustíveis. Um dos motivos é porque a área plantada no Brasil, cerca de 70 mil hectares na safra 2014/2015, é insuficiente para abastecer a indústria em grande escala. Se as lavouras continuarem se expandindo na atual velocidade, cerca de 25% ao ano, o cenário tem tudo para ser modificado, avalia Luiz Gustavo Floss, presidente da Abrascanola.

– Estamos caminhando nessa direção. Se conseguirmos chegar a cerca de 100 mil hectares plantados em mais dois ou três anos, teremos volume suficiente para tornar viável o processamento de canola para biodiesel – calcula o presidente da entidade.

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Maior produtor nacional de canola, com cerca de 70% da área cultivada no país, o Rio Grande do Sul destina quase 100% dos grãos à indústria de alimentos, especialmente à fabricação de óleos. Rico em ômega 3, o ácido graxo da semente ajuda a reduzir o colesterol, de acordo com pesquisas científicas. Com nove usinas já instaladas no Estado, há espaço de sobra no mercado para o biocombustível gaúcho. No ano passado, a produção gaúcha foi de 883 milhões de litros para uma capacidade instalada de 2,04 bilhões de litros.

– Hoje, temos condições de aumentar em 50% a nossa produção de biocombustível – calcula o empresário Erasmo Battistella, presidente da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil e da BSBios, fabricante de biodiesel com sede em Passo Fundo.

A ampliação no percentual de mistura fará com que o Brasil, terceiro maior produtor mundial de biocombustível, deixe de importar 1,2 bilhão de litros de óleo diesel por ano, conforme o Ministério de Minas e Energia.

– O aumento ainda não traz o aquecimento esperado pela indústria, mas é um alento para o setor o fato de que o biodiesel voltou a ser prioridade para o país – avalia Battistella, acrescentando que a meta do setor é chegar ao percentual de 10% de biodiesel adicionado ao óleo diesel até 2018.

Mais conhecimento e sementes no mercado

Sem a escassez de sementes importadas da Argentina, como ocorreu em 2013, a expectativa da Associação Brasileira de Produtores de Canola (Abrascanola) é de que 50 mil hectares sejam semeados com o grão neste ano. O impacto direto dessas lavouras na economia do Rio Grande do Sul será de R$ 100 milhões, estima o presidente da entidade, Luis Gustavo Floss.

O estímulo para a expansão vem especialmente da rentabilidade do grão, com cotação atrelada à soja, e do maior conhecimento dos produtores gaúchos sobre a cultura.

– Temos mais tecnologia disponível, e a oleaginosa entra como uma alternativa no inverno, ajudando a reduzir as plantas daninhas – explica Floss.

Gilberto Schultz, 59 anos, de Ernestina, começou a investir na canola há cinco anos para reduzir a invasão de azevém nas lavouras de trigo. O primeiro plantio foi em 20 hectares, com rendimento de somente oito sacas por hectare.

– Eu não sabia o que fazer, não conhecíamos a cultura direito – avalia o produtor rural.

Neste ano, com a canola cultivada em 150 hectares, a mesma área destinada ao trigo, espera colher 30 sacas por hectare.

– É uma cultura de alto risco, especialmente na época de colheita (a flor que dá origem ao grão é facilmente danificada pela chuva e pelo vento). Mas o que compensa é a liquidez no mercado, com o preço balizado pelo valor da soja – avalia Schultz.

Com áreas maiores destinadas à canola, crescem também o conhecimento e a tecnologia.

– Hoje, existem equipamentos e insumos específicos para essa cultura, o que estimula o investimento e melhora os resultados – avalia Alencar Rugeri, engenheiro agrônomo da Emater-RS.

Na Europa, a canola é uma das mais importantes matérias-primas para o biodiesel, inclusive pelo aproveitamento de grãos descartados na comercialização da oleaginosa para outros fins.

Diferentes custos de produção

Apesar de testes já feitos com canola e girassol, a produção de biodiesel no país ainda é dependente da soja, safra que alcançou 86 milhões de toneladas no ciclo 2013/2014, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Uma das principais fornecedoras de óleo bruto de canola no Brasil, a Celena Alimentos, com sede em Giruá, beneficia em média 35 mil toneladas da oleaginosa por ano para consumo humano, ração ou cosméticos.

– Hoje, o custo do óleo de canola é inviável para o biodiesel, por ser mais nobre e ter valor agregado maior do que o da soja (na venda para consumo humano) – explica Vantuir Scarantti, gerente agrícola da Celena Alimentos.

A maior adição de biodiesel no combustível terá impacto no consumo interno de óleo de soja, que deverá chegar a 6,1 milhões de toneladas neste ano — 300 mil toneladas a mais do que a estimativa anterior. Conforme a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, metade do volume adicional virá do processamento extra de grãos e a outra parte será redirecionada das exportações de óleo.

Fonte: Zero Hora

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