MST invade laboratório de pesquisas agropecuárias

Interrupção em unidade de Sarandi que controla vacinas contra aftosa coloca carne em risco

A invasão do Laboratório Nacional Agropecuário do RS (Lanagro) pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Sarandi, no norte do Estado, paralisou ontem o local onde é feito o controle das vacinas contra a febre aftosa no Brasil e no Conesul. Para a Superintendência do Ministério da Agricultura no RS, a situação é delicada, pois o ato põe em risco a credibilidade da carne gaúcha no Exterior e a própria permanência da unidade no Estado. Outras duas invasões ocorreram na Região da Campanha.
– A insegurança pode comprometer as exportações brasileiras e trazer prejuízos em um momento delicado da economia internacional – observa Francisco Signor, superintendente do Ministério da Agricultura no Estado.
Esta é a terceira invasão na área de 180 hectares. A última havia sido em novembro de 2004. Segundo a Brigada Militar, a ação começou por volta das 6h de ontem, quando cerca de 300 integrantes do MST renderam quatro vigias e quatro funcionários. Eles teriam sido agredidos antes de serem libertados uma hora depois.O MST nega as agressões e reitera que só sairá da área quando as reivindicações forem atendidas.
Os sem-terra cobram o cumprimento de um acordo feito em 2011 com o governo do Estado para assentar mil famílias. Também exigem a compra de terras em municípios como Sananduva, Santa Margarida do Sul e Júlio de Castilhos.
O governo do Estado culpa a burocracia pelo atraso no acordo. Segundo o secretário de Desenvolvimento Agrário, Ivar Pavan, o processo está em andamento, mas nenhuma família foi assentada. Ele observa que a resolução também depende do repasse de verbas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Um dos líderes do MST em Sarandi, Mateus da Silva reclama do investimento no Lanagro e afirma que o laboratório não cumpriria sua função. Apesar de não informar o orçamento da unidade, o Ministério da Agricultura reitera que o valor investido deveria ser ainda maior.
O superintendente Francisco Signor observa que a invasão repercutiu no mercado internacional. Ele revela ter recebido um telefonema da França em busca de informações. A maior preocupação é com as consequências na produção da vacinas e na sanidade dos rebanhos.
Signor conta que a unidade quase foi transferida para o Mato Grosso há pouco, mas acabou mantida no Estado após árdua negociação. Manter o MST longe da propriedade seria uma das garantias do acordo segundo ele, que confia em um desfecho rápido para o impasse e diz que a vacinação contra a febre aftosa, que se inicia em maio, não terá prejuízo. Ainda ontem, a Justiça concedeu a reintegração de posse da área à União. Os sem-terra têm até hoje à tarde para deixar a área.
Fazenda e praça foram alvos na Campanha
Na Campanha, as ações do MST incluíram a ocupação de uma praça no centro de São Gabriel e a invasão de uma fazenda em Santa Margarida do Sul – a Santa Verônica, de 950 hectares e em processo de desapropriação há três anos. O pedido de reintegração deve ser feito hoje.
Em Brasília, onde foram invadidos o prédio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e instalações do Incra, o ministro da Secretaria-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse que as conversas com o MST ficarão suspensas enquanto eles não forem desocupados.
A origem

O Abril Vermelho é como ficou conhecido o massacre de 19 agricultores por policiais militares, em abril de 1996, durante confronto em Eldorado dos Carajás, no Pará. Em memória ao episódio, os sem-terra costumam realizar ações nesta época do ano.
leandro.becker@zerohora.com.br

LEANDRO BECKER

O laboratório

– A área invadida em Sarandi, no norte do Estado é um centro de pesquisa a céu aberto. O Laboratório Nacional Agropecuário do RS (Lanagro) é responsável pelo controle de todas as vacinas contra a febre aftosa no país e também atende o Conesul. Mais de 800 animais são usados para testes com vacinas no local.

– Pelas regras, antes de serem colocados para venda ao produtor, as vacinas devem ser testadas pelos fabricantes e depois pelo Lanagro. Cerca de 35 fazendas gaúchas credenciadas fornecem terneiros para os testes.

– Comprados pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), os animais são transportados a Sarandi, onde recebem duas doses de vacina em teste e, depois, são vacinados com produto já aprovado e à disposição no mercado. Ao final, são encaminhados para terminação ou abate.

– Os bovinos da fazenda fazem parte de testes oficiais e não podem ser agredidos nem abatidos, sob risco de prejuízos ao sistema. Só no ano passado, 4 mil animais foram utilizados em exames.

Fonte: Zero Hora |

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