MP indica água oxigenada no leite

Operação deflagrada ontem apreendeu produtos químicos, caminhões e resfriadores em transportadora de Três de Maio

O Ministério Público do RS (MP) deflagrou ontem a terceira etapa da Operação Leite Compensado, indicando nova fraude, desta vez com suspeita de adição de água oxigenada e soda cáustica. Segundo o MP, os químicos estariam sendo misturados ao leite para mascarar a presença de água e cargas azedas recolhidas até quatro dias depois da ordenha.

Na ação, realizada em Três de Maio, Nova Candelária e Giruá, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão, resultando no confisco de três caminhões-tanques e três resfriadores. A operação investiga a suposta responsabilidade da empresa Transportes Reidel & Dias Ltda. Seu proprietário, o empresário Airton Jacó Reidel, está entre os citados pelo MP por suspeita de adulteração de produto alimentício e formação de quadrilha. Reidel, que teve a prisão preventiva negada devido à ausência de flagrante por adulteração, acabou sendo preso por porte ilegal de um revólver calibre 32. À tarde, após pagar a fiança, foi solto. Outros três envolvidos no suposto esquema também são investigados pelo MP. Após coleta de depoimentos, a denúncia deve ser oficialmente entregue à Justiça nas próximas semanas.

O leite coletado pela transportadora era entregue às fábricas da LBR (Bom Gosto), de Giruá, e da Laticínios Mallmann, em Sede Nova. As empresas garantem que as cargas contaminadas foram descartadas, e o MP, notificado. A LBR relatou a presença dos químicos em três cargas recebidas em outubro. Em função de denúncias anteriores, a LBR cumpre Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que exige o repasse de informações. Apesar de ter prestado esclarecimentos, a empresa seguiu recebendo leite da transportadora suspeita mesmo frente à determinação de descredenciamento imediato.

Ontem, equipes do MP fiscalizaram os locais onde a empresa de transporte funcionava: uma residência e um galpão, no bairro Jardim das Acácias. No galpão, os policiais encontraram três resfriadores (não permitidos em transportadoras), sal (usado para maquiar a quantidade de água adicionada ao leite), 50 litros de soda cáustica e outros químicos. Na residência de Airton, foram confiscadas notas fiscais de compra de peróxido de hidrogênio (água oxigenada) e soda cáustica, e o próprio produto. Também foram encontrados talões de produtores em nome de 64 criadores. Em um caso, a transportadora registrava a compra de mil litros a R$ 0,78. Na indústria, ele apresentava o seu talão com um volume maior e preço de R$ 1,00.

Durante a ação, foram coletadas amostras do leite, e encaminhadas para análise. Divulgados ontem no final da tarde, os resultados indicaram ausência de químicos. Segundo o promotor de Justiça de Defesa do Consumidor, Alcindo Luz Bastos Filho, a grande dificuldade de diagnosticar a presença da água oxigenada é que ela ‘desaparece’ em uma hora, transformando-se em água. O promotor de Justiça Especializada Criminal Mauro Rockenbach, que coordenou a operação, destacou que a ganância humana chega a ser maior que a preocupação com a saúde e que, enquanto existir adulteração, o MP estará investigando.

O esquema na versão do MP

Segundo o Ministério Público (MP), o leite era recolhido dos produtores sem cuidados com prazo. As cargas seriam adulteradas em um ponto de resfriamento clandestino, localizado em galpão na sede da transportadora, com adição de soda cáustica e água oxigenada;

Depois, o produto seria distribuído em quatro caminhões, principalmente para a Bom Gosto, de Giruá, que recebia, em média, 25 mil litros/dia da transportadora;

Um caminhão batedor seguia na frente e avaliava a presença de fiscais do Ministério da Agricultura. Se o caminho estivesse livre, descarregava na indústria, mas, se a fiscalização estivesse intensa, o leite era levado para queijarias;

O poder Judiciário não autorizou prisões preventivas, apenas a apreensão de todo o material utilizado na suposta adulteração, inclusive os caminhões. A prisão dos citados só estaria permitida caso fosse encontrado leite adulterado;

O esquema foi desbaratado por escutas telefônicas entre os motoristas dos caminhões;

O MP considera que as provas recolhidas (escutas, produtos, notas fiscais e as coletas positivas obtidas na LBR) são suficientes;

Conforme relatório da Receita Estadual, Airton Jacó Reidel foi o responsável, no último ano, pela compra de 25 kg de bicarbonato de sódio, 400 kg de hidróxido de sódio e 110 kg de peróxido de hidrogênio.

Fonte: Correio do Povo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *