Mão-de-obra desafia agricultura de precisão no sul do PR

GUARAPUAVA, Paraná, 29 Fev (Reuters) – Pioneiros na agricultura de precisão, produtores da fazenda Xanadu usam o sistema para reduzir custos e ganhar produtividade no sul do Paraná, mas alertam que a falta de mão-de-obra especializada é um desafio constante para sua atividade, mesmo em uma região que usa alta tecnologia.

Os irmãos William Paulo e Vilmar José Kasprzak deram início ao cultivo de alta precisão há 14 anos em sua fazenda na região de Irati, sul paranaense, sistema pouco conhecido no Brasil até então.

"Trouxemos o modelo dos Estados Unidos, quando ainda nem se falava em agricultura de precisão aqui no Brasil… Foi o primeiro (projeto deste tipo) no centro-sul do Paraná", contou Paulo Kasprzak, durante visita da expedição técnica Rally da Safra, acompanhada pela Reuters.

A partir do programa adquirido nos EUA, com recursos próprios, ele deu início ao mapeamento e análise das áreas de cultivo, levantando dados que posteriormente são usados para fazer a correção e adubação com alta precisão adequada ao solo da fazenda Xanadu, visitada na terça-feira pela equipe 4 do Rally da Safra, organizado pela Agroconsult.

Paulo Kasprzak ressalta que a agricultura de precisão garante a redução dos custos de produção, ao otimizar o uso dos insumos e propiciar a elevação dos níveis de produtividade na propriedade, onde cultiva cerca de 1.900 hectares, com soja, milho e pínus, em um projeto de reflorestamento.

"Para mim, é mais uma questão de saber tirar proveito da agricultura de precisão, depois de coletar os dados, e saber economizar", disse Paulo Kasprzak.

Mesmo assim, o investimento na agricultura de precisão já rende à propriedade níveis acima da média da região sul do Paraná. A fazenda registra produtividade de cerca de 62 sacas por hectare, contra a média de 53 sacas por hectare na região.

No caso do milho, enquanto o rendimento médio do entorno é de cerca de 136 sacas por hectare, os irmãos registram produtividade média de 171 sacas por hectare.

Segundo ele, é difícil avaliar quanto custa implantar um projeto deste porte, mas estima que são necessários ao menos dez anos para que o investimento comece a dar o retorno esperado.

Para isso, os irmãos vêm investindo pesadamente em equipamentos e máquinas de alta tecnologia, incluindo sistemas GPS.

No ano passado, compraram quatro plantadeiras e devem adquirir mais dois novos tratores com esta tecnologia, que custam em média de 30 mil a 40 mil reais a mais do que os tradicionais, de cerca de 500 mil a 700 mil reais.

MÃO-DE-OBRA

"Mas nosso grande problema tem sido a deficiência de mão-de-obra. Não basta ter computador bacana, tem que saber usar, tem que saber analisar os dados levantados", ponderou o produtor.

Ele explica que, além da escassez de pessoal especializado para lidar com os programas de computador que compilam os dados da propriedade, falta até suporte por parte dos vendedores de equipamentos.

O produtor lembra que chegou a comprar máquinas agrícolas de alta tecnologia, mas não recebeu suporte da fábrica quando o equipamento quebrou.

Segundo ele, atualmente, a situação relacionada a colheitadeiras e tratores melhorou um pouco, mas a mão-de-obra especializada para operar as máquinas segue sendo um problema.

O agricultor observou que as empresas fornecedoras deveriam oferecer mais treinamento para os operadores.

REFLORESTAMENTO

Atualmente, para manter o ritmo de expansão dos investimentos no sistema de alta precisão para cultivo agrícola, os produtores recorreram ao programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que destina recursos a juros baixos para "processos tecnológicos que neutralizam ou minimizam os efeitos dos gases estufa no campo", segundo o Ministério da Agricultura.

Por meio do Programa ABC, os irmãos tiveram acesso a crédito de 1,2 milhão de reais que estão sendo utilizados para o plantio do pínus, utilizado no programa de reflorestamento, na aplicação de calcário para correção do solo e a compra de maquinário.

"Só não entram aí adubação e mão-de-obra, porque estes entram nos programas (de financiamento para) custeio da safra, de curto prazo", explicou Paulo.

Na propriedade, eles cultivam tradicionalmente dois terços com soja e um terço com milho, além de feijão e trigo em algumas áreas menores, em sistema de rotação de culturas, que melhora a qualidade do solo e favorece o desenvolvimento das plantas.

A estratégia dos irmãos de privilegiar o cultivo de soja está em linha com frase corrente na região que diz "aqui se planta de tudo, mas o que paga a conta de tudo é a soja".

COMERCIALIZAÇÃO

Na atual temporada, os produtores já negociaram cerca de 50 por cento da safra de soja, cuja colheita na região começa em meados de março e prossegue até a última semana de abril, com valores entre 48 reais a 52 reais a saca, um patamar considerado razoável.

Mas Paulo reconhece que "perdeu o passo com o milho", tendo negociado apenas 25 por cento da safra. Ele explica que o cereal chegou a atingir 30 reais no porto de Paranaguá, o que representaria cerca de 27 reais na fazenda, descontando o frete.

Contudo, o cenário que se desenha agora é de queda dos preços diante da expectativa de um aumento expressivo de produção do milho safrinha, que deve pressionar os preços da commodity no mercado interno.

Estimativas de consultorias e do governo indicam que mesmo com as perdas provocadas pela estiagem na região Sul e no sul de Mato Grosso do Sul, a safra de milho do Brasil deste ano ainda deverá ser recorde, por conta da boa produção prevista para Mato Grosso.

A Agroconsult avalia que, diante deste incremento, o Brasil precisaria voltar a exportar um volume recorde de cerca de 11 milhões de toneladas, para que os preços do cereal permaneçam sustentados no país.

A equipe 4 do Rally da Safra segue nesta quarta-feira para Pato Branco, município no sudeste paranaense, já próximo da divisa com o Estado de Santa Catarina. A expedição prosseguirá até o dia 22 de março, em várias áreas produtoras do Brasil, e ao final do trajeto deverá apresentar novas estimativas de safra de milho e soja.

Fonte: R7 | Por Fabíola Gomes | Copyright Thomson Reuters 2011

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *