Mineira Copacafé terá bens leiloados

A Cooperativa dos Pecuaristas, Agricultores e Cafeicultores de Minas Gerais (Copacafé), com sede em Perdões e oito filiais em seis municípios, está em liquidação extrajudicial e apenas aguarda a decisão da Justiça para que seus bens sejam leiloados. Os recursos serão usados para o pagamento de dívidas. Desvios de café e débitos com fornecedores de insumos somam cerca de R$ 15 milhões – e, até agora, os cooperados que tiveram prejuízos em meio a essa situação estão a ver navios.

A diretoria que estava à frente da Copacafé até o início de 2013 é acusada de fraudes e desvios de 28 mil sacas de café que estavam depositadas na cooperativa. Também há acusações de desvios de leite, extravio de documentos, apropriação indébita previdenciária (não repasse para a União de INSS retido de cooperados e funcionários) e notas frias, segundo Chrystian Castro, advogado de parte dos cooperados prejudicados.

A Copacafé tinha 4 mil cooperados, incluindo produtores de café e os de leite ligados à Copacafé-Leite, braço de lácteos criado em 2010. Entre 200 a 250 cooperados foram prejudicados com o sumiço de seus produtos (café e leite), segundo Pedro Junqueira Ferraz, que presidiu a comissão provisória que administrou a Copacafé de janeiro a agosto de 2013 e que hoje compõe a comissão liquidante criada posteriormente.

"Essas pessoas que tinham café [na Copacafé] foram furtadas. As sacas eram deles e a cooperativa vendeu esse café. Não era de propriedade dela", afirmou Ferraz ao Valor.

Ivana de Fátima Costa Pereira Marra, contadora da "Copacafé em liquidação", disse que somente as dívidas com a União somam cerca de R$ 5 milhões. Há, ainda, os débitos com bancos. O advogado Chrystian Castro estima que o endividamento total supere R$ 40 milhões. Também há indícios de irregularidades na compra de uma indústria de lácteos em Manhuaçu (MG) – a Alimentos Rio Grande Indústria e Comércio.

Todas as denúncias recaem sobre o ex-diretor comercial e ex-vice-presidente Flávio Castello Branco e sobre o ex-presidente Rubens Pinto Rosa. Em outubro de 2012, Castello Branco foi abordado pela polícia, em Lavras (MG), pela apropriação indébita de café. Em fevereiro, foi decretada sua prisão preventiva. No mês passado, ele foi preso pelo desvio de dois caminhões de café, mas obteve liberdade provisória após pagar fiança de R$ 124 mil, de acordo com Tiago Veiga Ludwig, delegado da Polícia Civil de Perdões.

Ludwig afirmou que a prisão de Castello Branco poderá ser decretada novamente, pois a transferência de recursos para seu patrimônio está sendo monitorada. Desde o ano passado, a reportagem tenta falar com Castello Branco, que não respondeu aos pedidos de entrevista. Uma vasta documentação da Copacafé foi enviada à Contadoria da Polícia Civil em Belo Horizonte há cerca de um mês, conforme Ludwig. O próximo passo é concluir o inquérito.

Castello Branco e Pinto Rosa estão sendo intimados a prestar contas sobre seus atos. Se não conseguirem comprovar que a gestão foi regular, a cooperativa em liquidação poderá alegar que houve fraude e pedir o bloqueio dos bens de ambos, explica Castro. Em 2013, Pinto Rosa disse ao Valor que a crise se instalou após a compra da indústria de lácteos, por aproximadamente R$ 2 milhões.

A liquidação extrajudicial da Copacafé, aprovada em assembleia em agosto de 2013, foi a única solução encontrada diante da crise instalada, afirmou Ferraz. Segundo ele, foram determinadas três avaliações para cada imóvel da cooperativa e a ideia é que eles sejam leiloados por um preço não inferior à média dessas três avaliações. Os valores a serem arrecadados são suficientes para liquidar todo o passivo da cooperativa, de acordo com Ferraz.

Em fevereiro deste ano, foram enviados aos juízes das comarcas nos municípios das filiais da cooperativa pedidos de autorização para a realização dos leilões de venda dos imóveis da Copacafé. O advogado Chrystian Castro acredita que haverá deságio no pagamento dos credores. A estrutura da Copacafé envolve armazéns, escritórios e maquinários e é avaliada em R$ 33 milhões, segundo a contadora Ivana.

Instalada no centro-sul mineiro e com atuação até o norte do Estado, a Copacafé chegou a movimentar 400 mil sacas de café ao ano. Entretanto, desde 2006, após a entrada de Flávio Castelo Branco na cooperativa, o recebimento recuou muito, diz Ivana, sem citar números. Muitos cooperados não quiseram mais entregar café com as mudanças de gestão implementadas por Castello Branco – como a concentração de todas as operações de café em suas mãos.

No ano passado, aventava-se a possibilidade de a Copacafé ser adquirida por outra cooperativa. Segundo fontes, duas cooperativas poderiam "absorver" a Copacafé e assumir as dívidas. Segundo essas fontes, a Minasul, de Varginha, foi um dos grupos que mostraram interesse, mas desistiu diante da crise do segmento cafeeiro no ano passado, derivada do baixo preço do produto.

A paralisação da Copacafé, que teve grande importância em suas áreas de atuação, prejudicou sobretudo pequenos cafeicultores, na avaliação de Ivana. Muitos não têm mais como beneficiar e secar os grãos na cooperativa e obter preços melhores ao entregar lotes maiores.

© 2000 – 2014. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/agro/3592890/mineira-copacafe-tera-bens-leiloados#ixzz35ebajc18

Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *