Mercosul perde com oferta agrícola entre UE e EUA

A perspectiva de a União Europeia ter de fazer concessões na área agrícola aos Estados Unidos pode tornar os europeus ainda menos dispostos a atender demandas do Mercosul e concluir o acordo de livre-comércio birregional.

Essa avaliação de importantes negociadores do Mercosul, antecedendo nova rodada de discussões de 10 a 14 de setembro em Montevidéu, se reforça diante da dinâmica recente de discussões entre a UE e a administração de Donald Trump, conforme o Valor apurou.

Ministros do Mercosul foram surpreendidos com uma dura posição do comissário europeu de Agricultura, o irlandês Phil Hogan, em reunião ministerial em Bruxelas, no dia 18 de julho.

Hogan disse na reunião que a UE não tinha nova oferta agrícola para o Mercosul, que as concessões eram as feitas em janeiro e reclamou que o bloco do cone sul não ofereceu contrapartida. Depois de meia hora, abandonou a reunião.

Negociadores de Brasil, Argentina e Paraguai não conseguiram entender a postura de Hogan, que sinalizava quase um freio nas barganhas, quando a expectativa era de avanço crucial. Ainda mais depois de o Mercosul dizer ter apresentado elementos que permitiram aos europeus dimensionar o que podiam ganhar em termos de acesso ao mercado para seu setor automotivo, por exemplo.

Na semana seguinte, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, encontrou-se com Donald Trump em Washington, onde anunciaram uma trégua na hostilidade comercial bilateral, mais compra de soja e gás americano pelos europeus e a intenção de alcançarem um acordo entre as duas grandes economias.

No dia seguinte, Trump afirmou diante de agricultores americanos: "Acabamos de abrir a Europa para vocês". Em Bruxelas, Juncker desmentiu: "A agricultura está fora". Mas Robert Lighthizer, negociador comercial chefe americano, foi incisivo logo depois: "Nossa visão é de que estamos negociando sobre agricultura, ponto final".

Foi no meio dessas posições contraditórias que alguns negociadores do Mercosul passaram a considerar que a UE, já na expectativa do encontro Juncker-Trump, resolveu esperar para ver depois o que oferecer ao bloco do cone sul.

"Pode ser que a UE esteja guardando o mercado agrícola para o caso de os EUA endurecerem mais", diz um participante das negociações. Algumas demandas de Washington por melhor acesso são semelhantes às do Brasil, para carnes, por exemplo.

Nesse cenário, a nova rodada de negociações entre a UE e o Mercosul, em setembro em Montevidéu, é vista com pouco otimismo. Há dúvidas no bloco do cone sul sobre se os europeus vão se engajar às vésperas da altamente incerta eleição presidencial no Brasil, enquanto a Argentina está numa situação econômica extremamente delicada.

    Por Assis Moreira | De Genebra

    Fonte : Valor

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