Mercado interno garante lucro da Minerva

Ana Paula Paiva/Valor 

Fernando Galletti: "Por incrível que pareça, o mercado interno foi o destaque"

Diante da pressão negativa que a apreciação do real exerce sobre a margem das exportações, a Minerva Foods encontrou uma saída contraintuitiva no terceiro trimestre. No momento em que o consumo per capita de carne bovina caminha para atingir o menor patamar em quase 20 anos no Brasil, a empresa ampliou as vendas no mercado interno em quase 60%. Nesse contexto, a companhia obteve lucro líquido de R$ 47,4 milhões no terceiro trimestre, resultado melhor do que o registrado no mesmo período de 2015, quando a Minerva reportou prejuízo líquido de R$ 446,1 milhões.

"Por incrível que pareça, o mercado interno foi o destaque", afirmou o presidente da empresa, Fernando Galletti de Queiroz. Tradicionalmente, a Minerva obtém em torno de 70% das receitas no mercado externo, mas no terceiro trimestre a fatia do mercado interno chegou a 40%. Entre agosto e outubro, a receita líquida da companhia totalizou R$ 2,533 bilhões, 6,1% mais que no mesmo intervalo do ano passado. Considerando o mercado interno, a receita bruta cresceu 74,1% na comparação anual, para R$ 1,064 bilhão. Em compensação, a apreciação do real perante a moeda americana fez a receita bruta no mercado externo recuar 14,1%, para R$ 1,629 bilhão.

Segundo Galletti, o melhor desempenho doméstico reflete a ampliação da base de clientes – sobretudo no pequeno e médio varejo -, que passou de cerca de 30 mil em 2015 para 50 mil. Mas não só. Com mais recursos em caixa, a empresa ampliou a oferta de crédito para os clientes, por meio da concessão de mais prazo de pagamento. "Nossos clientes passaram a depender mais do credito [da empresa] porque os bancos não estão dando", disse o diretor financeiro, Edison Ticle. Segundo ele, a política de crédito foi fundamental para contornar o desempenho do mercado em geral. "Provavelmente, o mercado de carne no Brasil encolheu", disse o executivo.

Por outro lado, a estratégica afetou o fluxo de caixa livre, que ficou negativo em cerca de R$ 448 milhões no terceiro trimestre. "Nossa política de crédito, ao entender quais eram as limitações do cliente, consumiu mais capital de giro, mas melhoramos a performance", disse Ticle. No terceiro trimestre, a linha de contas a receber cresceu R$ 100 milhões.

Apesar da estratégia no Brasil, a Minerva não conseguiu evitar a queda do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) no terceiro trimestre. Devido aos impactos da desvalorização do dólar, o Ebitda diminuiu 10,4% na comparação com o mesmo período do ano passado, atingindo R$ 249,3 milhões. Com isso, a margem Ebitda da recuou 1,8 pontos percentual na comparação, de 11,7% para 9,8%.

Em entrevista a jornalistas, Ticle também enfatizou o potencial de geração de sinergias da aquisição do frigorífico capixaba Frisa. Segundo ele, a Minerva estima elevar a margem Ebitda do negócio de cerca de 5% para a 9% no prazo de um ano após a aprovação da transação, que depende do aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Segundo ele, a compra do Frisa fará a Minerva assumir a segunda posição entre as empresas de carne bovina na América do Sul, ultrapassando a rival brasileira Marfrig – a líder é a JBS. No Brasil, porém, a Marfrig segue maior do que a Minerva.

Fora do Brasil, o presidente Minerva reafirmou que a Argentina segue no radar para uma possível aquisição. A empresa também mantém os planos de crescer na Colômbia, onde possui uma unidade. Mas uma decisão sobre uma eventual aquisição no país deve levar mais tempo e só deve acontecer após o processo de "ramp-up" do frigorífico que possui no país.

Na área financeira, a Minerva Foods encerrou o terceiro trimestre com um índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda em doze meses) de 3,2 vezes, ante 2,6 vezes do fim do segundo trimestre do ano passado. Segundo Ticle, a aquisição do Frisa não terá impactos relevantes na alavancagem da companhia.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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