Mercado doméstico mostra sua força

Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/Valor
Antonio Carlos Costa (esq.), Benedito da Silva Ferreira e Alexandre Mendonça de Barros: apesar de crescimento menor, demanda dos emergentes seguirá firme

Após uma década de transformações e avanços expressivos em diversos segmentos, que consolidaram o Brasil como um dos mais importantes polos de alimentos do mundo, o ritmo de crescimento da produção e das exportações dos principais carros-chefes do setor no país tende a perder fôlego na próxima década. Mas o protagonismo global conquistado deve ser até reforçado por uma evolução que, mesmo arrefecida, será mais acelerada que a média mundial em frentes importantes como grãos e carnes, que terão na força da demanda doméstica uma viga de sustentação ainda mais relevante.

É o que prevê o "Outlook Fiesp 2023 – Projeções para o Agronegócio Brasileiro", recém-concluído pelo Departamento do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Deagro/Fiesp), comandado pelo diretor Benedito da Silva Ferreira, em conjunto com a MB Agro, braço da consultoria MB Associados liderado pelo economista Alexandre Mendonça de Barros. Trata-se do segundo trabalho do gênero que ganhou corpo na Fiesp, desta feita desenvolvido a partir de uma nova parceria e com algumas fontes de informações distintas do estudo de estreia, publicado em 2012. Mesmo que tais diferenças dificultem as comparações entre os dois "outlooks", as grandes tendências apontadas são semelhantes.

"O modelo de projeção da produção brasileira, no caso das commodities consideradas, parte de um balanço mundial da produção e consumo de alimentos, no qual a demanda de cada país é estabelecida a partir das expectativas de aumento da população e do crescimento da renda per capita, combinados às elasticidades-renda dos alimentos em cada um dos países", informa o novo trabalho.

As estimativas de crescimento da economia brasileira são da MB, as previsões de renda global são do Fundo Monetário Internacional (FMI) e as projeções para a população vêm da Organização das Nações Unidas (ONU). Outra novidade é que estatísticas de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) também passaram a permear os cálculos.

Independentemente de metodologias e fontes de informação, despontam, mais uma vez, estimativas que indicam que o agronegócio brasileiro, a partir de boas práticas sócio-ambientais, tem um caminho promissor nos planos doméstico e internacional. Para itens como soja, milho, açúcar e carnes bovina e suína, os incrementos previstos para a produção brasileira são superiores às médias mundiais – e, nos casos de soja e das carnes bovina, suína e de frango, o país tende a ganhar espaço nas exportações globais. A demanda externa deverá puxar as produções nacionais de algodão, soja, celulose e açúcar, mas o mercado doméstico será o vetor do crescimento das produções de arroz, trigo, milho, café, lácteos, ovos, etanol e das próprias carnes. Para feijão e trigo, e mesmo para o arroz, a dependência brasileira de importações, entretanto, tende a se sedimentar.

Para o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, "as projeções do Outlook Fiesp para as principais commodities agropecuárias em termos de produção, consumo doméstico e exportação, mostram a urgente necessidade de se estabelecer políticas públicas que ofereçam sustentação e estímulo frente ao grande potencial produtivo do Brasil". Caso contrário – e com uma estrutura logística atual já "insustentável", segundo Skaf -, haverá sérias dificuldades para viabilizar o escoamento das 38,1 milhões de toneladas a mais previstas para a produção de soja em 2023, ou das 11,4 milhões de toneladas adicionais de milho e dos aumentos projetados para a cana (40%) e para as carnes (27%) no horizonte traçado.

Locomotiva do campo no país na última década, a soja, mesmo com uma expansão menos expressiva da produção – 3,9% ao ano entre 2013 e 2023, ante 5% de 2002 a 2012 -, poderá render 119,6 milhões de toneladas em uma década e representar 50,2% de uma colheita total de grãos projetada em 238,1 milhões na safra 2022/23. Para 2012/13, Fiesp e MB Agro calculam a produção brasileira da oleaginosa em 81,5 milhões de toneladas, ou 44,5% de um total estimado em 183,1 milhões. As exportações da oleaginosa, direcionadas sobretudo para atender à forte demanda da China, deverão crescer 5,9% ao ano, ainda acima da média mundial (3,7%), o que poderá elevar a fatia nacional nos embarques globais de 39,6% para 47,3%.

"Deverá haver uma desaceleração das economias dos países emergentes, mas os crescimentos previstos vão se dar sobre bases maiores. O raciocínio vale para a China, onde o modelo de desenvolvimento tem privilegiado mais os estímulos ao consumo, que segue em mutação", afirma Antonio Carlos Costa, gerente do Deagro/Fiesp. Em uma linha de desenvolvimento que abrirá espaço para um consumo maior de carnes, por exemplo, países emergentes mantêm firmes os fundamentos do lado da demanda ao mesmo tempo em que a recuperação de economias desenvolvidas, como a americana, abrirá espaço para a queda da especulação nos mercados de commodities.

Se a soja tende a ganhar espaço entre os grãos, o milho poderá perder. Conforme o "Outlook Fiesp 2023", a produção nacional deverá crescer 2,3% ao ano na próxima década, ante 5,9% nos dez anos encerrados em 2012, e alcançar 92,7 milhões de toneladas na temporada 2022/23. Se confirmadas as previsões, o cereal representará 38,9% da colheita total de grãos estimada, ante fatia de 44,4% em 2012/13. E, se a fatia do Brasil nas exportações mundiais de milho tende a diminuir de 25,4%, em 2013, para 20,6% em 2023, a demanda doméstica deverá aumentar mais que a da soja, apesar de esta ser a principal fonte para a produção nacional de biodiesel: serão 11,9 milhões de toneladas a mais (23%) em 2022/23, ante as 8,8 milhões (21%) adicionais esperadas para a oleaginosa. E isso graças às perspectivas positivas para as carnes.

Para as três principais cadeias da pecuária, estão projetadas desacelerações nos ritmos de crescimento da produção, mas as taxas serão superiores às médias mundiais (carnes bovina e suína) ou praticamente do mesmo nível (carne de frango). E, nos três casos, em consequência da firme demanda doméstica prevista, o Brasil deve ganhar pouca participação nas exportações mundiais. Para a carne bovina, cujo consumo interno deverá subir 16% até 2023, a fatia poderá crescer de 20,9%, em 2013, para 21,4% em 2023. O "market share" da carne de frango deverá passar de 34% para 34,1%, e o da carne suína, de 9% para 10%. A projeção para o incremento do consumo doméstico de carne de frango é de 24%; para a carne suína, chega a 28%

A tendência de avanço da "cadeia da proteína" formada pelas carnes e alimentada por milho e soja tende a colaborar para o enfraquecimento relativo da produção de itens básicos como arroz e feijão, além do trigo – o Brasil já é um dos maiores importadores do produto do planeta. No caso do arroz, Fiesp e MB Agro preveem que as importações representarão 0,9% da demanda doméstica em uma década; no do feijão, a 2,3%. Mas para açúcar e etanol, os principais subprodutos da cana, estão estimados crescimentos para produção e exportações, mesmo que a produção do combustível siga dependente do mercado doméstico.

O estudo, que estará disponível na página da Fiesp na internet e poderá passar por atualizações em caso de imprevistos, contempla outras duas questões importantes: por um lado, aponta uma queda pequena na já histórica dependência brasileira de fertilizantes importados, sobretudo os derivados do potássio, que continuarão a atender a 93% da demanda dos agricultores do país. Mas, por outro, confirma a tese de que o avanço da agricultura ocorrerá principalmente sobre pastagens degradadas, o que sugere pressão adicional moderada sobre o ambiente. Os autores do "Outlook" estimam em 52 milhões de hectares a área ocupada por lavouras (cana, florestas plantadas, lavouras de 1ª safra) em 2013 e a projetam em 61,5 milhões em 2023. Mas, ao mesmo tempo, a área de pastagens poderá cair de 182 milhões para 177,1 milhões de hectares, o que deixa como "saldo" 4,6 milhões de hectares.

Mas tudo isso dependerá, em boa medida, não só de melhorias nos tradicionais "gargalos" logísticos do país, mas também do aumento de mão de obra qualificada para uma agropecuária cada vez mais tecnificada, como destaca Antonio Carlos Costa, e da contínua profissionalização das principais cadeias produtivas. Segundo Alexandre Mendonça de Barros, o avanço do setor pode ser dividido em quatro grandes ciclos: conquista da fronteira, domínio tecnológico, gestão de custos e governança. "Esse talvez seja o mais complexo, já que a profissionalização avança a passos lentos". E, nesse contexto, políticas oficiais que preservem e protejam a qualidade da produção brasileira, estimulem agricultores e pecuaristas e abram novos mercados para as vendas do país também são consideradas vitais.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes | De São Paulo

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