Mercado de milho de olho em Pequim

A China continua a provocar sobressaltos no mercado internacional de milho. É assim desde que o país, em meio ao crescente consumo de carnes de sua população, há alguns anos deixou de ser um exportador relevante do grão e passou a sinalizar que, em algum momento, se transformaria em grande importador. Nesse contexto, fechou acordos com Brasil, Argentina e Ucrânia, supridores com potencial para diluir o peso dos Estados Unidos em sua balança, e alimentou nesses parceiros a sensação de que mercado não faltaria mais para as ofertas disponíveis. Mas isso ainda não aconteceu. Assim, as infladas estimativas para as importações chinesas de milho no longo prazo já sofreram flagrante esvaziamento e cada movimento do gigante nesse mercado é acompanhado com especial interesse.

Para manter as discussões aquecidas, os chineses puseram mais lenha na fogueira em junho, quando, segundo o serviço alfandegário do país, importaram 873 mil toneladas do cereal, 3.103% mais que no mesmo mês do ano passado, e quase 90% desse volume foi proveniente da Ucrânia.

Com isso, no primeiro semestre as compras no exterior chegaram a 2,65 milhões de toneladas, quase o dobro que em igual intervalo de 2014. Pode ser só uma questão sazonal e que isso não signifique que o volume superará as 3 milhões de toneladas que o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) prevê para as importações da China nesta safra internacional 2014/15, que terminará em agosto. Mas foi o suficiente para reavivar as discussões sobre as estratégias de Pequim.

As elocubrações passam pelo recente incremento das importações chinesas de sorgo – alternativa normalmente mais barata que o milho para uso em rações, por exemplo – e, principalmente, pelo nível de estoques considerado ideal pelo país asiático. Na safra 2013/14, quando produziu 218,5 milhões de toneladas, as importações somaram 3,28 milhões de toneladas e os estoques finais de milho da China atingiram 77,32 milhões, ou 36,5% de sua demanda total, conforme estimativas do USDA. Para se ter uma ideia, os estoques finais mundiais representaram 18,3% da demanda global, também conforme o órgão americano.

Sempre de acordo com o USDA, em 2014/15 a colheita de milho na China caiu para 215,67 milhões de toneladas e as importações deverão recuar para 3 milhões de toneladas – mas os estoques finais em 31 de agosto deverão crescer para 79,96 milhões de toneladas, ou 37% da demanda doméstica (a relação global na temporada é calculada em 19,7%). A depender do ritmo de importações de julho e agosto, que está atrelado ao baixo patamar das cotações, os estoques poderão de fato engordar mais. Cauteloso ou não, o USDA mantém sua projeção intacta e projeta para o próximo ciclo também 3 milhões de toneladas.

Fonte: Valor | Por Fernanda Pressinott e Fernando Lopes | De São Paulo