Mercado de café de olho no clima

A pouco mais de um mês do início da colheita do café arábica da safra 2018/19 nas principais regiões de produção do Brasil, as condições das lavouras são favoráveis, mas as atenções se voltam para as previsões sobre o clima no momento em que os grãos estiverem sendo retirados dos cafezais.

Longos períodos de chuvas durante a colheita podem afetar a qualidade do café neste ciclo que é de bienalidade positiva, uma vez que pode haver queda ou fermentação dos grãos. Há previsões indicando chuvas no começo de maio e início de junho no sul de Minas Gerais e em São Paulo, observa Marco Antonio dos Santos, agrometeorologista da Rural Clima. Ele afirma, porém, que não é possível prever se serão chuvas mais pontuais ou duradouras. "Se for uma invernada [chuvas prolongadas no inverno] preocupa. Se forem só pancadas, não há problema", diz.

Atualmente os cafezais das principais regiões de arábica estão em fase final de enchimento de grãos e início da maturação. Embora as condições estejam favoráveis, Santos avalia que a colheita deve ficar aquém do potencial produtivo para um ano de bienalidade positiva. Isso porque, lembra, faltou chuva durante o período de florescimento da safra 2018/19 em algumas regiões, o que afetou o pegamento das flores. Além disso, produtores também reduziram o uso de tecnologia, o que afeta o desempenho, acrescenta.

Wellis Caixeta, trader da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocaccer), com sede em Patrocínio (MG), diz que a safra se desenvolve "dentro da normalidade" na região da cooperativa. A maior parte dos cafezais está em fase final de granação e em início de maturação, mas há alguma colheita pontual.

Após o ciclo de bienalidade negativa, quando a produção na região foi também afetada pela broca do café, as previsões são otimistas na Expocaccer. Para a região do Cerrado mineiro, a expectativa é que a colheita alcance entre 6,3 milhões e 6,5 milhões de sacas na temporada 2018/19, após um ciclo em que a produção somou entre 4,3 milhões e 4,5 milhões de sacas.

Com a colheita maior na região, a cooperativa também deve receber mais café. A projeção é atingir 1,5 milhão de sacas – mais que o dobro das 700 mil de 2017/18. A Expocaccer tem 520 produtores associados em 13 municípios.

O bom desempenho esperado na região também reflete menos problemas com doenças. No ciclo 2017/18, a broca deu dor de cabeça aos cafeicultores da região mas hoje preocupa menos. "A incidência está menor porque o produtor melhorou o manejo", afirma.

O quadro também é bom na região da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), a despeito de chuvas um pouco irregulares, nas palavras do presidente Carlos Alberto Paulino da Costa. "As chuvas foram um pouco irregulares, mas no total foi suficiente", avalia.

Com o ciclo positivo de produção, a Cooxupé espera receber 5,8 milhões de sacas de café em sua região de atuação – 22,6% mais que na temporada 2017/18. Costa considera plausíveis as estimativas da Conab para a produção de café no Brasil na nova temporada. A última projeção indica uma colheita entre 54,4 milhões e 58,5 milhões de sacas. Desse volume, cerca de 43,2 milhões são café arábica e o restante, conilon. Novos números devem ser divulgados em maio.

Enquanto o clima não causa sobressaltos, o presidente da Cooxupé não esconde sua preocupação com os preços do café, que considera "muito baixos". Para ele, se "o clima continuar normal, o preço vai ficar no que está hoje".

A depender das previsões atuais, a tendência é de estabilidade. Segundo Marco Antônio dos Santos, não há, por enquanto, previsões de geadas nas regiões de café.

Se desagrada aos produtores no que diz respeito às perspectivas para os preços do café, o atual cenário favorece a indústria. Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), diz que a expectativa é de "mercado suficientemente suprido. Não vai faltar café para exportação e para o mercado doméstico".

A expectativa de Herszkowicz inclui também o conilon, cuja produção está em recuperação após anos de seca terem afetado a oferta no Espírito Santo, principal Estado do produtor. Nesta safra as chuvas têm sido regulares e, aliadas a uma florada mais tardia, acabaram levando ao atraso da colheita.

"Choveu bem, as lavouras ficaram revestidas de folhas e protegeram os grãos, que estão demorando mais para amadurecer", explica Edimilsom Calegari, gerente geral da Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel). Segundo ele, em média, a colheita está 15 dias atrasada e só deve começar no início de maio.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor

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