MEMÓRIA – Morre Paixão Côrtes, maior pesquisador da alma gaúcha

Folclorista foi um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho

Folclorista foi um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho

ANA PAULA APRATO/ARQUIVO/JC

Morreu, na tarde de ontem, uma figura que, quase sozinha, personificava os mais diferentes aspectos da tradição gaúcha. O tradicionalista Paixão Côrtes tinha 91 anos e estava internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Ernesto Dornelles, em Porto Alegre. Em julho, ele precisou ser submetido a uma cirurgia para corrigir uma fratura no fêmur e permanecia internado desde então. A instituição confirmou o falecimento, mas não havia informado a causa até o fechamento da matéria.

O governo do Rio Grande do Sul e a prefeitura de Porto Alegre anunciaram luto oficial por três dias. O tradicionalista será velado no Salão Negrinho do Pastoreio do Palácio Piratini, e o enterro ocorrerá hoje, em horário e local ainda não definidos. O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) também decretou três dias de luto oficial, e as bandeiras foram colocadas a meio mastro na sede da instituição. O Sport Club Internacional, onde Côrtes era cônsul cultural, também prestou homenagem. Ele deixa a esposa, Marina, e os filhos Maria Zulema, Ana Regina e Carlos.

Nascido em Santana do Livramento, na Fronteira, João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes era engenheiro agrônomo, mas destacou-se como folclorista e pesquisador da cultura gaúcha. Em 1947, ele liderou os estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, na formação de um Departamento de Tradições Gaúchas, ligado ao grêmio estudantil da escola – um núcleo que disparou, logo em seguida, um processo que revolucionou a forma com que o gaúcho enxerga suas raízes.

Dedicou-se, ao lado de Luiz Carlos Barbosa Lessa e Glauco Saraiva, a um processo de resgate e compilação de diferentes aspectos da cultura do Rio Grande, que estavam então dispersos e, em vários casos, corriam risco de desaparecer. Após longa pesquisa nos mais diferentes cantos do Estado, os três formularam, em 1948, o Movimento Tradicionalista Gaúcho. Em seguida, surgiram os primeiros Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), núcleos que disseminaram a tradição pampeana em diferentes cantos do País e do mundo.

A imagem de Paixão Côrtes tornou-se icônica em 1954, quando serviu de modelo para a estátua do Laçador, esculpida por Antônio Caringi e considerada símbolo de Porto Alegre. Além disso, teve atuação destacada como radialista e compositor. Encontrava-se afastado da vida pública desde julho do ano passado, em decorrência de problemas de saúde.

O presidente do MTG, Nairo Callegaro, resumiu a morte de Côrtes como "uma perda irreparável". "Ele era dono de uma visão além do seu tempo, capaz de desencadear um processo de revalorização do folclore e da identidade regional que transcendeu as fronteiras do Estado e do Brasil. Graças a ele, as tradições gaúchas deixaram de ser apenas uma coisa do fogo de chão e tornaram-se um patrimônio universal."

Callegaro admite que o falecimento do tradicionalista trará alta carga emocional às comemorações da Semana Farroupilha, que ocorrem no próximo mês. Mas a melhor homenagem, diz ele, será a manutenção do legado do grande pioneiro – algo antecipado em uma conversa com o próprio Côrtes, logo antes do acidente que acabou fragilizando de vez sua saúde. "Ele me disse ‘Nairo, é preciso fazer a releitura do movimento. A sociedade da época era uma, hoje é de outra forma’. Uma pessoa de 91 anos, com essa lucidez, dizendo algo que muita gente mais jovem não vê com a mesma clareza. É uma responsabilidade enorme, manter e renovar o movimento, sem distorções e sem aproveitadores", afirma.

Fonte : Jornal do Comércio