MEIO AMBIENTE | Reciclagem entra em campo na Copa

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Bicca, da Coca-Cola: "O objetivo é assegurar que 100% dos materiais gerados nos estádios sejam reciclados"

O Fuleco vai reciclar. O mascote da Copa do Mundo 2014 vai dar o exemplo e aparecer nos telões antes, depois e no intervalo dos jogos fazendo o descarte correto do lixo. O vídeo educacional faz parte do projeto da Coca-Cola, patrocinadora dos jogos, que assumiu o compromisso de fazer a gestão dos resíduos sólidos recicláveis do grande evento esportivo.

"Fizemos uma parceria com a Fifa. O objetivo é assegurar que 100% dos materiais gerados dentro dos estádios sejam enviados para a reciclagem", diz Victor Bicca Neto, diretor de assuntos governamentais, comunicação e sustentabilidade da Coca-Cola para a Copa do Mundo.

Para cumprir essa meta, a patrocinadora do mundial treinou, vestiu e forneceu equipamentos de segurança, como luvas e botas, para 840 catadores ligados a cooperativas de reciclagem. A supervisão do trabalho em cada estádio fica a cargo de um funcionário da Coca-Cola. "Além de eles serem remunerados [cada trabalhador receberá R$ 80 como diária mais R$ 25 para alimentação e transporte], os catadores ficarão com todo material arrecadado para vender depois", diz Bicca.

Para Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), a Copa é um momento mais do que oportuno para tratar de um dos principais entraves para o reúso das garrafas PET: a falta de educação do consumidor. A embalagem plástica é o principal resíduo reciclável que será gerado dentro dos estádios, visto que as bebidas não serão vendidas em lata. Segundo a Coca, a cerveja será servida em copo, e os refrigerantes, fornecidos em garrafinhas de 600 ml ou 500 ml, dependendo da localidade. "Acreditamos que na Copa, as pessoas estão mais propensas a ouvir e a dar o destino correto ao material", diz Marçon. Segundo a Abipet, o Brasil recicla 59% do PET que embala refrigerantes, água, sucos, entre outros.

Fora dos estádios, a gestão de resíduos ficará, em parte, a cargo de projetos financiados ora pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) ora pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O ministério teve a adesão de seis das 12 cidades-sede em uma linha de apoio a catadores de material reciclável. Segundo a assessoria do MMA, foram distribuídos R$ 2,3 milhões para projetos aprovados em Belo Horizonte, São Paulo, Fortaleza, Curitiba, Manaus e Natal. Outras quatro das 12 cidades-sede aderiram ao financiamento do BNDES. A linha do banco serve para estruturar ou incrementar o sistema de coleta seletiva em caráter permanente nos municípios. Foram aprovados projetos em Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro. No total, as quatro cidades receberão R$ 79 milhões.

Nos estádios, outras iniciativas também buscam remeter o torcedor a iniciativas sustentáveis. Algumas estão ligadas ao próprio projeto de arquitetura. A Arena Pantanal, em Cuiabá, ficou com os quatro cantos abertos para facilitar a ventilação do lugar e oferecer um conforto térmico natural para os torcedores. A preocupação com o calor também foi levada em consideração na escolha dos materiais para as áreas de acesso e na fachada, segundo comunicado oficial no Portal da Copa. "Dividida em três partes, ela tem uma membrana na cor verde, no topo e na parte intermediária, que é perfurada e permite uma melhor ventilação, além de refletir a luz solar e ser incombustível", diz o comunicado.

No campo, o uniforme dos jogadores traz uma mensagem de reciclagem. O uniforme dos brasileiros – camiseta, calção e meia – foi fabricado com fio de poliéster feito de PET. Cada conjunto requer a reciclagem de 18 garrafas PET, segundo a assessoria da Nike. Os calções usam 100% de poliéster reciclado. A camisa tem o mínimo de 96% do mesmo material e 4% de algodão orgânico. As meias, 78% de poliéster reciclado. A blusa de compressão, usada por muitos jogadores embaixo da camisa, também utiliza poliéster de material reciclado. O modelo Nike Pro Ultraleve é feito com 96% de poliéster reciclado, o que equivale a cinco garrafas PET por peça.

Alguns dos torcedores também puderam experimentar outra iniciativa na Copa no campo da sustentabilidade. No mês passado, a Fifa realizou uma campanha para compensar as emissões de gases de efeito-estufa resultantes da viagem do público para o torneio. Para isso, os portadores de ingressos com uma conta válida do "Clube Fifa.com" se cadastravam no programa pelo site da federação. Quem participava concorria a um sorteio para ganhar dois ingressos para a final no Maracanã, enquanto a Fifa se comprometia a cobrir os custos de compensação do seu deslocamento, diz comunicado da assessoria de imprensa da federação. Os resultados da campanha ainda não foram divulgados.

De acordo com inventário do governo federal, o volume de emissão por conta de voos internacionais para a Copa será realmente imenso mas passível de compensação. O inventário projeta que o torneio provocará a emissão total de 1,406 milhão de toneladas de gás carbônico equivalente. Desse montante, 87,1% virão do transporte aéreo internacional. O restante será gerado de forma direta (hospedagem, voos nacionais, obras, operações, deslocamentos previstos de turistas e profissionais), responsável pela emissão de 60 mil toneladas. Uma outra parcela será emitida de forma indireta, dados os roteiros de turistas, traslados entre aeroporto, arena e hotel.

Juntamente à divulgação do inventário na semana passada, o MMA anunciou que o Brasil recebeu a doação de créditos de carbono equivalente a 115 mil toneladas de CO2 nem 10% do total previsto no inventário. A compensação foi feita por doações da Rhodia, Estre Ambiental, Rima Industrial e Tractebel Energia, segundo o site do ministério. Mais doações são esperadas até o fim do ano.

Até dezembro, o governo também espera que a anunciada certificação dos estádios com o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) aconteça. Na semana passada, apenas duas (Castelão, em Fortaleza, e Fonte Nova, em Salvador) das 12 arenas tinham o selo. Outras seis aguardam a resposta do Green Building Council, entidade que concede a certificação, a seus relatórios.

Também para depois da Copa deverão surgir as decisões para outras iniciativas para mitigação de riscos, nesse caso de acidentes e segurança do trabalho. Em Brasília, a ação civil pública feita pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) da região ainda não havia recebido uma decisão final até o fechamento dessa reportagem. A ação é resultado do trabalho dos procuradores da região no projeto Trabalho Seguro.

O projeto tem como objetivo supervisionar as condições de grandes obras no país, entre elas a Copa do Mundo, e mobiliza os MPTs localizados em todas as cidades-sede do torneio. Até agora, foram registradas nove mortes em obras nos estádios, sendo uma causada pelo infarto de um operário no local de trabalho.

Para mobilizar consumidores, turistas e empresas para questões de sustentabilidade, foi lançado, entre outras iniciativas, um manual de Compras Sustentáveis, desenvolvido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável em parceria com 21 empresas. Segundo Fernando Malta, assessor de relações institucionais do Conselho, o manual serve como referência para as empresas. "O objetivo é que o comprador use critérios sustentáveis e pondere os riscos ao escolher um fornecedor", afirma Malta.

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Fonte: Valor |  MEIO AMBIENTE | Por Karla Dutkievicz | Para o Valor, de São Paulo

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