Medida argentina derruba estoque de trigo brasileiro

A decisão argentina de suspender as exportações de trigo até o dia 26 de dezembro começa a trazer reflexos para o abastecimento da cadeia produtiva que depende da commodity. Como o Brasil importa cerca de 4,5 mil toneladas anuais, o equivalente a 80% das vendas externas do país vizinho, os estoques em baixa devem provocar aumentos entre 15% e 20% no preço de produtos como pão, biscoitos e macarrão já a partir da próxima segunda-feira. 
O problema de abastecimento também gera expetativas sobre o leilão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) programado para hoje. A projeção é de que a tonelada seja negociada a valores próximos de R$ 900,00 – o que representaria um ágio de 75% sobre o leilão realizado em julho do ano passado.
Mesmo assim, as 30 mil toneladas colocadas à venda serão insuficientes para atender à demanda. De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria e de Massas Alimentícias e Biscoitos do Rio Grande do Sul (Sindipan-RS), Arildo Bennech Oliveira, para os próximos quatro meses a estimativa é de que sejam necessárias 3 milhões de toneladas para abastecer o mercado nacional. No Rio Grande do Sul, a carência é de 500 mil toneladas. “Com isso, as fábricas e panificadoras terão de recalcular os custos e os repasses chegarão, inevitavelmente, aos consumidores.”
Conforme explica o analista da Safras&Mercados Renan Gomes,  as restrições na oferta devem perdurar pelo menos até o início de agosto. Isso porque o Brasil não deve ter condições de suprir a quebra registrada na última colheita. Responsável por cerca de 40% da produção nacional, o Estado teve redução de 30% na última safra e deve depender da recuperação de países do Mercosul para estabilizar os estoques. “A projeção é de que os preços voltem aos patamares normais apenas em agosto, quando entram as novas safras do Paraguai e do Paraná”, comenta.
Já o presidente do Sindicato das Indústrias de Trigo do Estado (Sinditrigo-RS), José Celestino Antoniazzi, projeta dificuldades para os próximos cinco meses.  Isso porque os moinhos gaúchos possuem capacidade de processamento de 120 mil toneladas por mês.
“Não se esperava essa explosão de preço neste momento. No mercado internacional, a tendência é de baixa. Por aqui, o dólar explodiu e a situação com a Argentina alterou todo o mercado. Já existia uma preocupação com a elevação do preço, mas agora isso se ampliou para o abastecimento”, resume.

Estabilidade depende de prorrogação da isenção da TEC

Prevendo a alta dos preços, o governo federal retirou a Tarifa Externa Comum (TEC) sobre o trigo importado de países de fora do Mercosul. A ação colabora para diluir a alta do dólar, que supera os 12% em junho. Isso porque o principal mercado com capacidade de suprir a carência da commodity no mercado interno é o norte-americano.
Entretanto, a validade da medida expira no dia 31 julho. O prazo é considerado curto pelas entidades representativas do setor.  O presidente do Sindicato das Indústrias de Trigo (Sinditrigo-RS), José Celestino Antoniazzi, explica que o tempo mínimo estimado para que uma embarcação dos Estados Unidos vença os trâmites legais, antes de ancorar no Brasil, é de 45 dias. “Isso significa que um pedido feito hoje chegará ao País após o vencimento da isenção”, afirma.
A TEC sobretaxa em 10% as cargas de trigo que não sejam oriundas de países do Mercosul. Conforme o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria e de Massas Alimentícias e Biscoitos do Rio Grande do Sul (Sindipan-RS), Arildo Bennech, as entidades do setor estão unidas na tentativa de prorrogar a isenção até setembro, mês em que as novas safras brasileiras já devem estar disponíveis no mercado.

Fonte: Jornal do Comércio | Rafael Vigna

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