Mecânicos agrícolas assumem perfil de consultor técnico para acompanhar novas tecnologias

Profissionais são determinantes no serviço pós-venda de fabricantes de máquinas e equipamentos

Mecânicos agrícolas assumem perfil de consultor técnico para acompanhar novas tecnologias Tadeu Vilani/Agencia RBS

Pacheco teve os primeiros contatos com equipamentos agrícolas trabalhando em lavouras de arrozFoto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Ao investir valores que podem passar de R$ 1 milhão em máquinas agrícolas, produtores querem assistência imediata e eficaz quando os equipamentos falham em períodos cruciais da produção: plantio e colheita. Determinante para a decisão de uma nova compra, o serviço pós-venda das fabricantes se tornou tão importante como o desempenho na lavoura.

Recordes no mercado de colheitadeiras, tratores, pulverizadores e implementos transformaram mecânicos com conhecimento prático em técnicos capazes de solucionar problemas em equipamentos cada vez mais tecnológicos. Há pouco menos de 10 anos, eles chegavam às lavouras com uma maleta de ferramentas. Parafusos, buchas, chaves e alicates continuam indo a campo, mas agora são dispositivos eletrônicos que acompanham esses profissionais para fazer o diagnóstico dos problemas. Equipamentos plugados na máquina conseguem detectar onde está a falha e o que deve ser feito.

No meio rural, popularizou-se pela internet a história de um produtor paranaense que, em fevereiro deste ano, invadiu uma revenda e ameaçou o gerente com um machado. Após investir cerca de R$ 600 mil em uma colheitadeira, ele se revoltou com a espera pelo conserto — a empresa havia apenas emprestado uma máquina usada para que ele não interrompesse a colheita. O caso simboliza como o serviço de manutenção se tornou sensível no campo.

— O pós-venda fica comprometido pelo grande volume de vendas. Durante a colheita, o agricultor não pode esperar dias pelo conserto de uma máquina — avalia Alexandre Prado, coordenador de projetos especiais do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RS).

A urgência em resolver falhas em equipamentos se deve a janelas de plantio e colheita cada vez mais estreitas por questões climáticas e cultivares específicas. Em algumas épocas, as máquinas trabalham três turnos, sem interrupção, para aproveitar o bom tempo.

— Estar preparado para atender a essa sazonalidade é o que fidelizará o cliente — diz João Vidal, gerente de pós-venda da revenda Sotrima, com sete unidades no Estado.
Em vídeo, veja a evolução do mercado de trabalho para mecânicos agrícolas

Com conhecimento detalhado sobre produtos específicos, adquirido em anos de treinamento nas indústrias, mecânicos aliam o conhecimento prático com as inovações lançadas também nos Estados Unidos e na Europa.

— Os requisitos para formação desse trabalhador aumentaram. Ele precisa, no mínimo, uma formação técnica para prestar assistência em equipamentos cada vez mais sofisticados — ressalta Hernane Cauduro, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos no Estado (Abimaq-RS).

A necessidade de mão de obra capacitada em mecânica tem levado fabricantes a aumentaros investimentos em cursos e treinamentos nos últimos anos. Recentemente, a Agco, detentora das marcas Massey Ferguson e Valtra, investiu R$ 8 milhões em um centro de treinamento tecnológico em Campinas (SP) para atuar na qualificação de funcionários de revendas de todo o Brasil.

— Esse novo profissional precisa ter conhecimento técnico e operacional, entender um pouco de tudo para ter um diagnóstico rápido do que está ocasionando a falha — explica Marcos Ferrari, diretor de pós-venda da fábrica de tratores da Massey Ferguson, em Canoas.

Qualificação dentro e fora das propriedades

Para suprir a carência de mecânicos, revendas têm investido em trabalhadores com conhecimento prático e disposição em aprender novas tecnologias dos equipamentos. Funcionário de uma lavoura de arroz durante uma década, em Barra do Ribeiro, Élcio Daniel Souza Pacheco, 37 anos, operava máquinas agrícolas e ajudava em reparos emergenciais. Há quatro anos, foi contratado por uma revenda em Porto Alegre para atuar como auxiliar de mecânico agrícola. Depois de fazer treinamento na indústria, tornou-se consultor técnico. Hoje, está prestes a ingressar na classificação master — a mais avançada dentro da carreira.

— Antes, eu conhecia a prática da lavoura. Agora, preciso entender todo o sistema para saber o que fazer. Não mexo em nada antes de fazer o diagnóstico eletrônico — conta Pacheco, que praticamente triplicou o salário após se profissionalizar na área.

Outra alternativa adotada pelas empresas do setor tem sido formalizar parcerias com entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RS) para repassar conhecimento sobre os diferentes produtos aos instrutores que propagam a informação em cursos regulares. O objetivo é preparar o produtor ou operadores a fazer ajustes básicos que reduzam a necessidade de atendimentos técnicos nos momentos de plantio e colheita.

— As vezes são problemas simples, que podem ser resolvidos rapidamente sem comprometer a produção — diz Alexandre Prado, coordenador de projetos especiais do Senar no Rio Grande do Sul.

Os fabricantes também têm recorrido a escolas técnicas, como Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que oferece cursos de manutenção de máquinas e mecânica indústrial.

Mão de obra treinada na própria fábrica

A opção encontrada por indústrias para suprir a carência de profissionais qualificados no mercado tem levado a ampliação das universidades corporativas. Em treinamentos básicos e avançados, empresas treinam seus funcionários em cursos técnicos. Assim como em aulas regulares, os funcionários são diplomados ao alcançar notas específicas. Apesar de chamadas de "universidades", em geral são cursos técnicos, não reconhecidos pelo Ministério da Educação, destinados a treinar internamente mão de obra que falta no mercado.

— As formações nos permitem comparar técnicos brasileiros com europeus, asiáticos ou americanos. São níveis de classificação mundial — explica Darci Teixeira, gerente de treinamento para a América Latina da John Deere.

A John Deere University busca suprir uma carência de pelo menos 40% de mão de obra qualificada para as unidades instaladas no país. Atualmente, dependendo da região do Brasil, um técnico master em mecânica tem salário variando entre R$ 5 mil e R$ 8 mil.

— É um caminho sem volta. O mecânico passou a ter uma função técnica, com atuação na manutenção preventiva e na tecnologia embarcada no produto — completa Teixeira.

Com modelo semelhante de formação, a Agco Academy oferece aos colaboradores cursos de capacitação presencial e à distância. Com conteúdos específicos para as áreas de vendas, peças e serviços, as unidades estão localizadas nas cidades de Santa Rosa e Canoas, no Rio Grande do Sul, e na paulista Ribeirão Preto.

Onde aprender

Produtor rural
O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) é parceiro de fabricantes na formação profissional ao oferecer cursos a produtores sobre noções básicas de mecanização. O treinamento é uma forma de ensinar o agricultor a fazer ajustes simples, que reduzam a necessidade de assistência técnica imediata.

Informações: www.senar-rs.gov.br e (51) 3215-7500

Profissionais
O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) oferece cursos técnicos em tornearia mecânica, manutenção de máquinas e mecânica industrial. As aulas, com cargas horárias distintas, são ministradas em diversos municípios gaúchos.

Informações: www.senai-rs.gov.br e (51) 3347-8787

Fonte: Zero Hora |   por Joana Colussi

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