Mecanização dos canaviais mostra sua força

Em 1987, o grupo sucroalcooleiro São Martinho, que se resumia a uma única usina sucroalcooleira em São Paulo, empregava 12 mil pessoas e moía 4,5 milhões de toneladas cana, um índice de 3,8 trabalhadores para cada mil toneladas processadas. Em 2014, a companhia, com quatro usinas e moagem de 21 milhões de toneladas, tinha no seu quadro 13,4 mil pessoas, o equivalente a 0,64 funcionário para mil toneladas.

A possibilidade de extrair mais sacarose por cada pessoa empregada foi vital para o aumento estrutural da margem Ebitda da companhia – que, a despeito de toda a crise setorial, saiu nos últimos quatro anos do patamar de 40% para 48%, como lembra o diretor financeiro da São Martinho Felipe Vicchiato. "Um terço do nosso custo total é com pessoal".

Na média, as usinas brasileiras em geral caminham na mesma direção, mas com passos menos largos. Em 2014, empregaram 1,53 pessoa para cada mil toneladas de cana processada, segundo estimativa da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) feita a partir de dados do Caged. Considerado apenas o Centro-Sul, região onde a mecanização atinge 90% do total, o índice foi de 1,35.

Apesar de terem suspendido ou limitado investimentos em expansão em razão da crise financeira e de preços que afeta as usinas há cinco anos, as empresas do segmento que continuam na ativa, sobretudo às do Centro-Sul, tiveram que investir em mecanização, para atender à legislação que estipulou prazos para o fim da queima de canaviais.

Por isso, o grande salto já veio. Antes da mecanização se intensificar, em 2006, eram empregados no Brasil 2,6 trabalhadores para cada mil toneladas processadas. Atualmente em 1,53, esse índice tem potencial para ir a 0,7 ou 0,8, na visão do diretor técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues.

Ele observa que a produtividade do trabalhador também está relacionada ao rendimento agrícola da plantação e à tecnologia das máquinas usadas na colheita. "Há usinas cujas máquinas estão colhendo mil toneladas por dia. Por outro lado, outras empresas usam máquinas que não ultrapassam a média de 500 toneladas diárias", compara Pádua.

Com 23 usinas que moeram 57 milhões de toneladas em 2014/15, a Raízen Energia, maior empresa do segmento, obteve no ciclo um índice de 0,56 empregado por mil toneladas de cana. Com uma folha de pagamento com 32 mil pessoas, a companhia vai a um índice de 1,06 se considerada apenas a cana própria que processa – ou seja, descontada a matéria-prima de terceiros.

O vice-presidente de Açúcar e Etanol da Raízen, Pedro Mizutani, diz que ainda há ganhos a realizar a partir da maior eficiência da mecanização. "Mas o avanço daqui para frente é menor. Não se prevê grandes saltos". Ao mesmo tempo que a tecnologia "dispensa" a presença de mais trabalhadores – como é o caso de uso de drones para monitorar as lavouras em vez de um exército de técnicos -, também cria outras funções. "Com a colheita mecânica, por exemplo, precisamos ter um operador de máquinas enfardadeiras, que recolhem e agrupam a palha seca resultante da colheita", cita Mizutani.

A otimização do trabalho na fábrica deriva também do próprio fato de ter sido reduzido o número de "safristas", os trabalhadores temporários que eram contratados apenas para o período de colheita. "As mesmas pessoas que fazem a safra trabalham na entressafra, fazem o plantio. Como há trabalho o ano todo, esses funcionários já entraram no quadro permanente das empresas", diz Mizutani.

A São Martinho, que desde 2007 está com 90% de sua colheita mecanizada, está implantando um projeto amplo de automação de suas operações agrícolas e aumentando a adoção de ferramentas de agricultura de precisão. "Não são saltos, mas evoluções", diz Vicchiato. Entre os pontos do projeto está o uso de piloto automático em colheitadeiras. Atualmente, 60% delas são dirigidas por computador. A previsão da companhia é de que nos próximos dois anos esse percentual chegue a 100%.

Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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