Médio produtor enfrenta agora o desafio da gestão

Responsável por importante parcela da produção agrícola brasileira, o médio produtor enfrenta um momento conturbado. Nos últimos dez a quinze anos, os agricultores passaram a conviver com uma intricada legislação trabalhista e previdenciária, que trouxe desafios de custos e de gerenciamento da produção a serem superados.

"O produtor precisa aprimorar sua gestão, ter noção clara dos custos envolvidos em todo o ciclo e ter o preço da comercialização bem definido", afirmou o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, José Carlos Vaz, durante o seminário "Agronegócio de Futuro", realizado em São Paulo. Ele frisou que os produtores precisam aprender a fazer provisões em seus balanços e usar melhor os mecanismos de capitalização. "É importante saber que a colheita bem sucedida do ano anterior pode servir como financiamento à próxima safra, o que reduz a necessidade de ir ao banco."

Para André Pessôa, sócio consultor da Agroconsult, a escala de produção do setor agrícola nacional está mudando. Ao lado de grandes empresas, estão se formando megaconglomerados, com estrutura de governança corporativa mais moderna e com melhor acesso ao mercado de capitais. Nesse modelo, fica uma dúvida para o especialista: onde irão se encaixar as médias empresas nas regiões de fronteira agrícola, como Maranhão, Piauí e Tocantins? Essa dificuldade de visualizar sua sobrevivência futura poderá trazer problemas ao setor.

Uma colheita bem sucedida pode servir como financiamento e reduzir a necessidade de recorrer ao banco

"As cidades de IDH elevado do Centro-Oeste e do Nordeste, como Lucas do Rio Verde e Luiz Eduardo Magalhães, foram resultado da expansão das médias empresas agrícolas", disse. Os médios agricultores ajudaram a dotar essas cidades de infraestrutura urbana, fazendo com que os municípios alcançassem um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país.

A concentração da expansão em grandes propriedades deverá criar um vazio populacional nessas regiões de fronteira, o que dificultará a agregação de valor, com a instalação de indústrias no entorno.

"Essas cidades poderão ter um desenvolvimento humano pior. Não podemos esquecer da sustentabilidade social. Vamos ter dificuldade de vender esse modelo para a sociedade sem esse alicerce", alertou Pessoa, que destacou que é preciso pensar em algum modelo para incorporar o médio produtor nas regiões de fronteira. "Não sei se faz sentido pensar em subsídio à compra de terra nessas áreas, mas é preciso estudar algo para eles se perpetuarem e conviverem com as grandes propriedades", ressaltou. Outro desafio será gerencial.

"O produtor precisa ter uma gestão financeira e comercial focada nos negócios. Isso ainda é um problema em muitas propriedades", disse.

Poderá ser vista também uma nova geração de cooperativas, em que o processo decisório dependerá do volume de investimento feito, ou seja, atrelada ao volume de produção físico, diferente do modelo tradicional em que cada cooperado tem um voto. "Poderemos ter grandes cooperativas na região Sul, que podem ir até a Bolsa de Valores", frisou Pessoa.

A rentabilidade ao produtor tem sido positiva nos últimos anos, o que tem mudado a estrutura de financiamento dos projetos nas novas fronteiras, como o Centro-Oeste.

Na safra 2007/2008, o capital próprio dos agricultores respondia por 6% do financiamento da colheita. Na safra 2010/2011, esse percentual pulou para 25% e hoje deve estar em 30%. A parcela dos bancos, que estava em 12% há cinco anos, pulou para cerca de 20%. "Isso mostra que os produtores estão com mais dinheiro e que os bancos estão olhando o setor com outros olhos, por conta da rentabilidade elevada", diz.

Fonte: Valor | Por Roberto Rockmann | Para o Valor, de São Paulo

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