Marfrig tem primeiro lucro desde 2010

Silvia Zamboni/Valor

Marfrig cumpriu a promessa de reduzir a alavancagem, disse Eduardo Miron

(Atualizado às 07h36 de 28/02/2019) Pela primeira vez desde 2010, a Marfrig Global Foods, segunda maior indústria de carne bovina do mundo, encerrou um ano no azul. Inflada pela bilionária venda da Keystone — um negócio de R$ 8 bilhões —, a empresa conseguiu um lucro líquido de R$ 2,2 bilhões no  quarto trimestre do ano passado. Com isso, mais do que compensou as perdas dos primeiros nove meses, lucrando R$ 1,4 bilhão em 2018.

Trata-se de um desempenho  em muito superior ao visto quarto trimestre de 2017. Naquele período, a Marfrig amargou um prejuízo líquido de R$ 21,5 milhões —  contribuindo para uma perda anual de quase R$ 485 milhões.

Sem a venda da Keystone, no entanto, o resultado teria sido negativo. A Marfrig teria registrado um prejuízo de R$ 1,2 bilhão no quarto trimestre e de R$ 2,2 bilhões no acumulado de 2018 em razão de perdas (sem efeito caixa) na área tributária. No quarto trimestre, a empresa fez uma baixa de mais de R$ 700 milhões na estimativa de créditos de impostos a recuperar.

Em entrevista ao Valor, o CEO da  Marfrig, Eduardo Miron, comemorou o “ano de transformação”, com  o cumprimento da promessa de redução do endividamento feita em 2015. Graças à venda da Keystone, a Marfrig cortou sua dívida líquida pela metade — para US$ 2 bilhões — e reduziu o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado) de 4,5 vezes no fim de 2017 para 2,4 vezes em 31 de dezembro do ano passado. A meta  para esse índice era 2,5 vezes.

Além de concluir o ano com uma estrutura de capital adequada — o excessivo endividamento foi o calcanhar de Aquiles da Marfrig  na última década —, a empresa também restringiu a área de atuação. Com a venda da Keystone, uma empresa especializada no fornecimento de carne de frango ao McDonald’s, a Marfrig concentrou suas operações em carne bovina.

Mas não se trata de uma empresa menor. Pelo contrário. Em 2018, antes de vender a Keystone, a Marfrig adquiriu o controle da National Beef, a quarta maior indústria de carne bovina dos Estados Unidos, por quase US$ 1 bilhão. Assim, deixou de ser apenas um grande frigorífico na América  do Sul, com abatedouros no Brasil, Uruguai e Argentina. Os EUA são os maiores produtores de carne bovina do planeta, e estão entre os três maiores exportadores dessa proteína — o Brasil é o principal.

Com a incorporação da National Beef, a Marfrig passou a ser uma empresa mais rentável devido ao momento favorável para a indústria frigorífica americana — com ampla oferta de gado bovino e demanda aquecida por carne.

Nesse cenário, a receita líquida da Marfrig alcançou R$ 10,6 bilhões no quarto trimestre, avanço de 12% ante os R$ 9,5 bilhões de igual período de 2017 — os números dos dois anos já consideram a National Beef, para facilitar a comparação. No acumulado de 2018, a receita líquida bateu a marca de R$ 40 bilhões, atingindo R$ 41,4  bilhões, aumento de 19,8% ante os R$ 34,6 bilhões registrado no ano anterior. Em 2018, a National Beef foi responsável por cerca de 70% das vendas da companhia brasileira.

Puxado pelos Estados Unidos, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) ajustado, que desconsidera as despesas não recorrentes, alcançou R$ 881 milhões no quarto trimestre, montante 17,9% superior aos R$ 747 milhões do mesmo intervalo de 2017. Com isso, a margem Ebitda ajustada ficou em 8,3% no quarto trimestre, ante 7,9% um ano antes. Em 2018 como um todo, o Ebitda da Marfrig bateu o recorde e chegou a R$ 3,4 bilhões, alta de 35,2%.

Quando se considera as despesas não recorrentes, porém, Ebitda registrou forte queda. No quarto trimestre, o Ebitda foi de apenas R$ 55 milhões, queda de 92% na comparação com os R$ 688 milhões de igual período do ano passado. Em 2018, o Ebitda diminuiu 20%, para R$ 1,8 bilhões.

O tombo do Ebitda não ajustado reflete ajustes contábeis feitos pela Marfrig, sobretudo no quarto trimestre. A empresa fez uma baixa, sem efeito sobre o caixa, de R$ 727,4 milhões na linha de perdas estimadas para a não realização de créditos tributários. Outros R$ 616 milhões se devem à adesão da Marfrig ao programa de refinanciamento da contribuição previdenciária Funrural — a empresa pagou a maior parte desse débito com créditos tributários. Portanto, não houve efeito sobre o caixa.

Segundo Miron, o bom momento nos EUA mais que compensou as dificuldades no Uruguai, onde os pecuaristas estão retendo gado, e no Brasil. No quarto trimestre, o abatedouro de Mineiros (GO), um dos mais relevantes da empresa, ficou parado devido a um incêndio.

Com a National Beef entregando resultados melhores do que o esperado quando a Marfrig fez a aquisição, a companhia voltou a gerar fluxo de caixa livre ao acionista pelo segundo trimestre seguido. Entre outubro e dezembro, foram cerca de R$ 380 milhões.

A avaliação do CEO da Marfrig é que o bom momento vai seguir em  2019 — e reforçado pela compra das operações de hambúrguer da BRF.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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