Marfrig pode desbancar Minerva em suprimento de carne à BRF

A Minerva Foods, terceira maior empresa de carne bovina do Brasil, pode deixar de ser uma fornecedora relevante da matéria-prima usada pela BRF na produção de hambúrguer, apurou o Valor. A dona das marcas Sadia e Perdigão está negociando com a Marfrig Global Foods, segunda maior indústria de carne bovina do país, um contrato para o fornecimento de carne, segundo uma fonte a par do assunto.

Ao acertar as bases do contrato com a Marfrig, a BRF ganhará flexibilidade para vender as ações que ainda tem na Minerva. Conforme o último formulário de referência disponível na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a BRF detém 6,8% das ações da Minerva. Considerando o atual nível da cotação das ações da Minerva, a participação da BRF na empresa paulista de carne bovina vale cerca de R$ 115 milhões.

A medida torna ainda mais improvável uma eventual fusão entre as duas empresas, que chegou a ser aventada no mercado. A proposta tinha a simpatia de investidores como o empresário Rubens Ometto e o fundo americano Arlon (Continental Grain), mas saiu do radar após a indicação de Pedro Parente ao cargo de CEO da BRF, no dia 14 de junho.

Os valores do contrato de fornecimento de carne bovina são pouco expressivos, na casa de R$ 200 milhões. O montante representa menos de 1,5% da receita líquida de R$ 15 bilhões projetada pela Minerva para este ano e cerca de 0,5% do faturamento da BRF. No passado, quando a BRF fornecia hambúrguer ao McDonad’s e a Minerva era menor, o contrato foi mais relevante, chegando a representar 4% das receitas da Minerva.

A Minerva não é a única fornecedora de carne bovina para a BRF – ainda que seja a mais importante. A própria Marfrig já vende carne bovina para a companhia. Além do hambúrguer, a BRF utiliza a carne bovina na produção de alimentos como lasanhas prontas e almôndegas.

Com o fornecimento assegurado por meio da Marfrig, a BRF pode ganhar flexibilidade em relação ao acordo de acionistas vigente entre a VDQ Holding, veículo de investimentos da família Vilela de Queiroz (controladora da Minerva), e a BRF. O acordo pode ser desfeito pela VDQ caso a participação da BRF na Minerva se torne inferior a 6%. Nesse cenário, o contrato de fornecimento poderia ser afetado. Uma fonte próxima à BRF, porém, minimiza o impacto da decisão, ressaltando que o fornecimento da Minerva poderia ser mantido, ainda que em bases de preço diferentes.

Em teleconferência com jornalistas, em 29 de junho, o vice-presidente executivo da BRF, Lorival Luz, não descartou a venda da participação das ações da Minerva, mesmo diante da possibilidade de perder o contrato de fornecimento. "Todas as alternativas serão avaliadas. As decisões e os momentos [da decisão] serão tomados no melhor interesse da BRF", disse na ocasião.

A alienação da fatia minoritária que a BRF tem na Minerva pode se dar no contexto do plano de monetização anunciado em junho por Pedro Parente. Ao todo, a BRF pretende angariar R$ 5 bilhões ainda este ano para reduzir o seu elevado endividamento.

Grande parte desse montante deverá ser obtido com venda das operações na Argentina, Tailândia e Europa e da securitização de recebíveis. Mas a venda de participações minoritárias, como as que a BRF tem na Minerva e na estatal chinesa Cofco Meat, também estão listadas como "ativos não operacionais" que podem entrar no plano de desinvestimentos.

O acordo de fornecimento entre Minerva e BRF foi firmado em 2013, quando a última decidiu sair da produção de carne bovina e vendeu os dois frigoríficos de bovinos que tinha nas cidades de Várzea Grande e Mirassol D’Oeste, em Mato Grosso, para a Minerva. Em troca, a BRF recebeu 29 milhões de ações da Minerva.

Neste ano, a BRF já vendeu uma fatia significativa das ações da Minerva. Em junho, se desfez de 10,8 milhões de ações, reduzindo sua fatia de quase 12% para 6,8%. A BRF amargou um expressivo prejuízo contábil nas vendas de ações em junho. Em 2014, quando recebeu 29 milhões de ações da Minerva, as papéis valiam R$ 12,17. Hoje, valem 40% menos.

Procuradas pela reportagem, BRF, Marfrig e Minerva não comentaram.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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