Marfrig confia no dólar para crescer

A desvalorização do real sobre o dólar e o aumento das vendas da subsidiária Keystone na Ásia – em especial, na China e na Tailândia – sustentarão o crescimento da Marfrig em 2016, período que ainda deve ser marcado pela prometida desalavancagem. Essa é a avaliação do vice-presidente de planejamento estratégico e diretor de relações com investidores da empresa, Marcelo Di Lorenzo.

Em encontro com analistas realizado ontem em São Paulo, a Marfrig divulgou as projeções para este ano, estimando que encerrará o período com uma receita líquida entre R$ 22 bilhões e R$ 24 bilhões, o que representa um crescimento de ao menos 16,4% ante os R$ 18,9 bilhões obtidos em 2015. Ontem, a empresa também divulgou o balanço anual, reportando prejuízo líquido de R$ 586 milhões, 20,8% menos que a perda de R$ 739,5 milhões registrada em 2014.

Segundo Di Lorenzo, o câmbio terá papel fundamental no crescimento esperado pela Marfrig. Considerando apenas a valorização do dólar, calculou, a receita líquida da empresa alcançaria R$ 21 bilhões, uma vez que 80% das receitas da empresa são geradas em outras moedas que não o real.

Além do efeito cambial positivo, a Marfrig também aposta em novo avanço da Keystone, subsidiária especializada no fornecimento de carnes a grandes redes de restaurantes. A expectativa é que a Keystone mantenha o forte ritmo de crescimento nas vendas na região conhecida como "Apimea" – Ásia, Pacífico, Oriente Médio e a África -, ressaltou o vice-presidente de finanças da Marfrig, Ricardo Florence. Em 2015, as vendas da subsidiária nessa região cresceram 23%, somando 192 mil toneladas.

De acordo com Florence, os investimentos que a Marfrig vem fazendo na ampliação da capacidade da Keystone visam sustentar o atual ritmo de crescimento. Entre os ‘guidances’ divulgados ontem, a companhia projetou que os investimentos ficarão entre R$ 450 milhões e R$ 600 milhões neste ano – os números incluem todos os negócios da Marfrig. A empresa não detalhou os dados por subsidiária.

Questionado sobre a divisão de bovinos da empresa (Marfrig Beef), Di Lorenzo reconheceu que essa frente de negócios tem potencial de crescimento mais limitado neste ano por conta da menor oferta de boi gordo no Brasil. Diante disso, a companhia vai manter a estratégia já adotada no ano passado, quando privilegiou a rentabilidade em detrimento do volume de produção.

Nesse contexto, os cinco frigoríficos fechados pela Marfrig no ano passado para adequar a capacidade de abate à oferta de boi disponível não devem ser reabertos neste ano, acrescentou o CEO da Marfrig, Martín Secco. Segundo ele, a maior demanda prevista para a China deverá se traduzir em melhores preços para a empresa, e não em volumes. De todo modo, a Marfrig vislumbra elevar o índice de utilização de capacidade dos frigoríficos no Brasil de 90% para 95%.

No front financeiro, a empresa reforçou ontem o plano de reduzir o endividamento bruto em até R$ 1,2 bilhão até o fim de 2016. Com recursos recebidos em setembro do ano passado pela venda da Moy Park, a Marfrig já conseguiu atingir parte de sua meta, reduzindo a dívida bruta em US$ 684 milhões com as recompras de bonds.

Além disso, a companhia segue em negociações para vender suas operações na Argentina. No fim de 2015, a Marfrig chegou a anunciar que estava em negociações "avançadas", mas a transação ainda não se confirmou. "Estava próximo, mas não conseguimos completar", disse o CEO da Marfrig.

De acordo com Martín Secco, a troca de governo na Argentina atrapalhou o processo de venda dos ativos, mas as negociações com o grupo estrangeiro interessado – a empresa não divulgou o nome – prosseguem. Secco sinalizou a possibilidade de "flexibilizar" a negociação, vendendo os quatro ativos que tem na Argentina em etapas, e não como um bloco inteiro, como foi planejado.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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