Marfrig busca equilíbrio entre aquisições e controle da dívida

Para ter uma operação sustentável, a Marfrig Global Foods, segunda maior empresa de carne bovina do mundo, precisa ser "grande", afirmou ao Valor o CEO da companhia, Eduardo Miron. "Não é crescer por crescer, mas tamanho é importante em um negócio de commodities", disse o executivo. No ano passado, a Marfrig deu um salto com a aquisição, por quase US$ 1 bilhão, do controle da National Beef, quarta maior indústria de carne bovina dos EUA.

Com a incorporação dos resultados da National Beef, a receita líquida da Marfrig superou a marca de R$ 40 bilhões em 2018, conforme balanço divulgado quarta-feira. No ano anterior, as vendas da companhia brasileira haviam alcançado R$ 18,5 bilhões. Questionado se a estratégia de crescimento da Marfrig contemplava uma expansão regional, com eventuais aquisições na Austrália, Miron negou. "Não há nenhuma estratégia de mover [a empresa] para alguma região". Conforme ele, o foco da empresa são as operações nas Américas, a região mais competitiva na produção de carne bovina.

Mas aquisições pequenas nas regiões onde a Marfrig atua estão no radar, indicou o executivo ontem, durante teleconferência com analistas. Miron assegurou, no entanto, que as aquisições só serão feitas caso não tenham impacto relevante no endividamento. "Não existe nada grande, nenhuma operação bilionária no radar", afirmou ele.

Atualmente, a Marfrig tem abatedouros nos Estados Unidos, no Brasil, no Uruguai e na Argentina. O negócio nos EUA representa cerca de 70% do faturamento. Para o futuro, a estratégia de crescimento terá como foco produtos de "valor agregado", disse Miron, ao Valor.

Nesse sentido, a compra das ativos da hambúrguer da BRF, anunciada pela Marfrig em dezembro, é um exemplo tanto de estratégia quanto de preço. A companhia pagou cerca de R$ 315 milhões, com um impacto de "0,01 vez" na alavancagem, disse Miron. Estrategicamente, o negócio permitiu o avanço para alimentos de valor agregado – e melhores margens.

Com a compra da fábrica da dona de Sadia e Perdigão em Mato Grosso e da Quickfood (empresa líder em hambúrguer na Argentina), a Marfrig se tornou a maior produtora de hambúrguer do mundo.

Nos EUA, a Marfrig já contava com uma grande fábrica de hambúrguer, no Estado de Ohio, capaz de produzir cerca de 90 mil toneladas por ano. Considerando as aquisições dos ativos da BRF, a capacidade supera 200 mil toneladas anuais.

Ao Valor, Miron destacou, ainda, que os frigoríficos de carne bovina da Marfrig nos EUA estão mais rentáveis do que as unidades no Brasil. Mas o executivo reconheceu que esse não é o padrão histórico. Normalmente, as margens da indústria de carne no Brasil são mais altas que nos EUA. No entanto, os americanos vivem um dos melhores momentos da história, com grande oferta de animais, redução dos preços do gado e demanda aquecida por carne.

No Brasil, por outro lado, a Marfrig sofreu no quarto trimestre com a redução dos abates, principalmente em razão do incêndio que paralisou o abatedouro em Mineiros (GO). Para 2019, o CEO acredita em uma melhora do cenário, com retomada da economia – o que pode ampliar o consumo de carne bovina – e aumento das exportações.

De acordo com ele, é grande a esperança de que a China habilite mais frigoríficos do Brasil para exportar. Outra notícia positiva pode vir dos próprios Estados Unidos. "A abertura dos EUA pode acontecer a qualquer momento", disse ele, em alusão à reabertura do mercado americano de carne bovina in natura. Washington embargou o produto em 2017.

Mesmo com a melhora no Brasil, a tendência é que as operações americanas continuem rendendo melhores margens para a Marfrig, indicou Miron. "Acho que esse [novo] normal vai seguir", afirmou ele. Atualmente, a Marfrig não divulga separadamente as margens dos negócios no Brasil e nos EUA, prática que é alvo de frequente questionamento. Em relatório divulgado ontem, o BTG Pactual criticou a falta de detalhes, qualificando o balanço da empresa como "bagunçado".

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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