Marca se destaca com matérias-primas sustentáveis

De camisa xadrez, bermuda e barba por fazer, os franceses François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp parecem prontos a encarar uma maratona de shows em um festival de rock alternativo. Mas as aparências enganam. Falando um bom português, os sócios fundadores da marca de tênis franco-brasileira Vert não se intimidam no diálogo com agricultores do sertão cearense, apesar da diferença de sotaques e regionalismos linguísticos.

As conversas vão além da negociação do preço do algodão orgânico da próxima safra. Abordam a vida na roça, o tempero do feijão, o clima no semiárido. Quem vê a simplicidade dos rapazes não imagina que há apenas dez anos eles fundaram uma marca de tênis que já é sinônimo de ‘cool’ na Europa – graças justamente ao apelo sustentável de seus produtos.

Formados em administração de empresas, os dois amigos de infância trabalhavam no mercado financeiro até se encantarem com o conceito de sustentabilidade, durante a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável de Johanesburgo, em 2002. Ali, decidiram que investiriam num negócio próprio com esse perfil, juntaram suas economias e partiram numa viagem de pesquisa que durou mais de um ano pela Índia, China, África do Sul e Brasil.

Na Amazônia, conheceram um projeto de extração sustentável de palmito pupunha que serviu de inspiração para a marca que criariam pouco tempo depois, em 2004. "Tomamos contato com uma iniciativa de comércio justo, o que nos deu motivação para replicar o conceito e desenvolver um negócio com esse foco", diz Morillion.

Fanáticos por tênis, logo descobriram que podiam unir o útil ao agradável. Na mesma época, circulava a notícia de que marcas globais de artigos esportivos usavam mão de obra semiescrava e infantil em suas fábricas terceirizadas na Ásia. "Tivemos a ideia de produzir tênis com um impacto social e ambiental positivo na cadeia", conta. No Brasil, passaram a mapear possíveis fornecedores de matérias primas sustentáveis, e conheceram projetos de extrativismo de borracha no Acre e o algodão agroecológico do sertão do Ceará.

O primeiro calçado foi lançado com boa aceitação em uma feira de moda em Paris. Lojas como Le Bon Marché, Galeries Lafayette e a japonesa Isetan fizeram encomendas do primeiro modelo, que na França foi lançado sob a marca Veja – nome que não puderam utilizar quando lançaram a marca no Brasil.

Começaram com uma modesta produção de 5 mil pares/ano, todos comercializados na Europa, e só no ano passado lançaram a marca Vert (verde, em francês) no Brasil. Atualmente a produção está em torno de 100 mil pares/ano, confeccionados no polo calçadista de Novo Hamburgo (RS), e a marca está presente em 700 pontos de venda no exterior – incluindo uma loja conceito no Canal Saint Martin, um dos bairros repaginados de Paris que reúne galerias de arte e restaurantes descolados.

No Brasil, os tênis estão em 28 pontos de venda, além de uma operação de e-commerce no site da marca. "Ainda somos pequenos. Queremos crescer, mas sempre respeitando os valores humanos e ambientais em que acreditamos", diz o sócio Kopp. Mesmo pequenos – a Vert tem 35 funcionários, entre França e Brasil – o trabalho em sustentabilidade na cadeia produtiva garantiu reconhecimentos da revista "Vogue" francesa e do jornal "The Guardian".

Um tênis da marca custa entre R$ 200 e R$ 550, dependendo do modelo. O calçado mais caro da coleção, lançado este mês, é confeccionado com couro de tilápia, tingido com pigmentos naturais em um processo artesanal criado em uma fazenda de Pindorama (SP). A borracha que compõe a sola dos tênis é fornecida por três associações extrativistas que reúnem 35 seringueiros no Acre, em um projeto que tem parceria com o governo do Estado e a ONG ambiental WWF.

A busca por matérias-primas sustentáveis tem seu preço: o custo de produção de um calçado da marca é cerca de 7 vezes maior em comparação a um calçado similar produzido na China. Para manter os preços dentro do patamar de mercado, uma das regras da Vert é não investir em publicidade convencional.

"Até 70% do preço de um tênis das marcas globais mais conhecidas é em razão do marketing focado em esportistas e celebridades. Como nossos custos de produção são mais altos, nosso investimento em marketing precisa ser baixo", diz Kopp. Em vez de contratar celebridades para anunciar seus produtos, as estratégias da Vert estão ligadas à arte e ao estilo de vida das ruas, como exposições de arte que tenham identificação com o posicionamento da marca.

Uma dessas iniciativas é o Projeto Ouro Branco, que levou o artista pernambucano Derlon para uma residência artística na comunidade de Riacho do Meio, em Choró, no sertão cearense. Lá, o artista, que mistura técnicas de xilogravura e grafite urbano, criou desenhos nas paredes das casas dos agricultores que cultivam o algodão orgânico utilizado pela Vert, homenageando as 72 famílias do povoado e sua luta pela terra e sobrevivência no semiárido. O trabalho de Derlon foi registrado pelo fotógrafo argentino Pablo Saborido e será tema de exposição nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Paris, a partir do mês de maio.

A jornalista viajou a convite da Vert

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Fonte: Valor | Por Andrea Vialli | De Choró (CE)

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