Mapa da cadeia produtiva de suínos indica movimentação de quase R$ 150 bi em 2015

Responsável por abastecer cerca de 40% do consumo global de carnes, a suinocultura ostenta números expressivos também no Brasil. Com mais de 1 milhão de empregos gerados direta e indiretamente, o segmento movimentou R$ 149,8 bilhões do campo à mesa dos consumidores e registrou Produto Interno Bruto (PIB) da ordem de R$ 62,5 bilhões no ano passado.

Os números integram um mapeamento inédito sobre a cadeia produtiva da suinocultura no Brasil, o quarto maior produtor mundial de carne suína. O estudo, que será lançado hoje, foi encomendado pela Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) à consultoria Markestrat e à FEA/USP de Ribeirão Preto (SP).

Do montante movimentado anualmente pela suinocultura, a maior parte se dá no processamento da proteína e na comercialização. De acordo com dados do estudo, o faturamento estimado do segmento "depois da granja" foi de R$ 117,7 bilhões em 2015, quase 80% do total.

A maior parte desse faturamento é gerado nas vendas no mercado interno. No ano passado, as vendas de carne suína pelos frigoríficos do país renderam R$ 40, 3 bilhões, dos quais 93% em vendas domésticas. Entre os produtos suínos, a linguiça fresca foi a que registrou maior faturamento em 2015 – R$ 5,8 bilhões.

Embora o Brasil seja o sexto maior consumidor mundial de carne suína em termos absolutos, cada brasileiro consome apenas 15 quilos dessa proteína por ano. Trata-se de uma média ainda baixa se comparada à de países como Estados Unidos (27,9 quilos), Alemanha (53,5 quilos) e Hong Kong (60,4 quilos). "Aumentar o consumo interno de carne suína é, simultaneamente, um desafio e uma grande oportunidade", destaca o trabalho.

De acordo com informações do estudo, o baixo consumo no Brasil pode ser explicado pela menor disponibilidade de cortes suínos em comparação ao que ocorre com as carnes bovina e de frango. Mas também há fatores culturais. A carne suína é considerada gordurosa por muitos brasileiros. Nos últimos anos, no entanto, as campanhas publicitárias têm ajudado a alterar esse quadro, e a carne suína vem sendo mais demandada nos lares do país. Além disso, os preços mais elevados da carne bovina muitas vezes estimulam a migração do consumo para a carne suína.

Além de destrinchar os números da cadeia produtiva, o mapeamento coordenado pelo professor titular do campus de Ribeirão Preto da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Marcos Fava Neves, também chama atenção para os desafios da suinocultura brasileira num momento em que o crescimento da produção global está em curva descendente.

Puxada pelos países em desenvolvimento, a produção global de carne suína cresceu 42% entre 1995 e 2005, para 117,7 milhões de toneladas em equivalente carcaça. "Previsões para a próxima década mostram que ainda haverá aumento no volume total produzido. No entanto, pelo ritmo até então demonstrado, haverá uma desaceleração na taxa de crescimento", destaca o estudo, que informa que esse movimento se intensifica desde 1960.

Até 2024, a produção de carne suína crescerá "apenas" 10%, totalizando 130 milhões de toneladas em equivalente carcaça, como apontam projeções mais recentes da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Nesse contexto, o consumo de carne de aves ultrapassará o de carne suína, tornando-se a proteína mais consumida do mundo. Em grande medida, o crescimento mais acelerado da produção de carne de frango em comparação ao de carne suína se deve aos menores custos de produção.

Diante desse cenário, o "Mapeamento da Suinocultura Brasileira" alerta para a inexistência de um planejamento estruturado por parte do governo brasileiro. Essa ausência, nota, ficou clara neste ano, com a disparada dos preços do milho, o principal ingrediente da ração anima. "Embora causado por uma alta nas exportações do grão e frustração na segunda safra do Centro-Oeste em 2016, caso tivesse um estoque regulador significativo o governo teria sido capaz de manter o preço do milho no mercado interno em um patamar tolerável para o produtor – ainda que distante do ideal", aponta o estudo.

Mas não o problema não é apenas a política de abastecimento. Quando se trata de escassez de milho, o caso de Santa Catarina assume "contornos mais graves", de acordo com o mapeamento. Maior produtor nacional de carne suína – com 25% do abate -, o Estado possui um déficit anual de 3,5 milhões de toneladas do cereal. O problema aqui é o custo de frete para transportar milho das regiões produtoras do Centro-Oeste para Santa Catarina. "É muita ineficiência para um país que se orgulha em se apresentar como líder na produção mundial de alimento". A solução estrutural, acrescenta o estudo, é investir na área de ferrovia e hidrovia.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.