Mandato do etanol nos EUA na berlinda

A escalada dos preços do milho no mercado internacional, turbinada pela seca que devasta o Meio-Oeste americano nesta safra 2012/13, trouxe novamente à tona a discussão sobre uma possível revisão no mandato de produção de etanol no país.

O motivo é o peso do biocombustível sobre a oferta do grão, que cresceu ainda mais depois que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou, na sexta-feira, um corte brutal na perspectiva de colheita do país. No ciclo 2011/12, o etanol abocanhou 40% da colheita americana de milho, ou 127 milhões de toneladas.

Os criadores de animais já pediram a revisão desse mandato, e o mesmo fizeram multinacionais americanas de agronegócios e alimentos, como Cargill e Kellogg’s. Mais de 100 congressistas americanos engrossaram o coro e decidiram enviar uma carta à Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) para solicitar a redução do mandato de produção de etanol nos EUA.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) também já se posicionou. "Uma suspensão imediata e temporária do mandato traria alívio ao mercado e permitiria que uma maior parte da colheita fosse canalizada para os alimentos", afirma o brasileiro José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO, em artigo publicado na última quinta-feira no jornal "Financial Times".

Apesar da crescente pressão política, analistas acreditam que a possibilidade de mudança é remota. Em 2008, no auge das preocupações com a inflação dos alimentos, a EPA negou uma petição do governador do Texas, Rick Perry, que solicitava a redução do mandato. Agora, com a oferta do grão apertadíssima no mundo, a situação voltou a se complicar.

Desde o início de junho, as cotações do milho subiram 54% na bolsa de Chicago, de acordo com o Valor Data. No mesmo intervalo, estima-se que os preços das rações animais – em grande parte compostas pelo grão – tenham subido entre 35% e 40% nos EUA.

Atualmente, a lei americana determina uma mistura de até 15% de etanol à gasolina. Como há uma preocupação com a adaptação dos veículos, a adição tem sido gradual e, atualmente, o percentual está na casa dos 10%. Em 2012, as usinas deverão utilizar 13,2 bilhões de galões do biocombustível (49,9 bilhões de litros) na mistura.

"Alterar o mandato ou não é muito mais uma questão política", acredita Pedro Dejneka, analista da Futures International, em Chicago. Segundo ele, ainda haverá bastante bate-boca, principalmente se o milho rumar para US$ 9 por bushel (na sexta-feira, os contratos para dezembro fecharam a US$ 8,0925 por bushel, em baixa de 1,76%).

"Estamos em ano de eleição nos EUA e os republicanos podem tentar atacar a falta de ação do governo atual em relação a isso, defendendo que a população não vai poder pagar mais caro pelos alimentos, com o desemprego no nível em que está. Quanto mais o milho subir, maior será o ‘barulho’", avalia.

De fato, ao menos parte da alta do milho deve ser repassada ao consumidor. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) prevê que os preços dos alimentos subirão entre 3% e 4% no próximo ano, em função da estiagem no país. "Penso que se engana quem acha que essa maior oferta de milho virá do etanol. Terá de haver uma substituição da matéria-prima usada na ração e um aumento das importações", diz.

Stefan Tomkiw, vice-presidente da mesa de derivativos para América Latina do Jefferies Bache, em Nova York, lembra que quando o mandato foi aprovado, em 2005, esses movimentos do mercado já eram considerados.

"Dentro do programa, foi colocado que poderiam haver solavancos de preço até a produção e o consumo se estabilizarem. E ainda temos a meta de aumento do mandato para 15 bilhões de galões (56,7 bilhões de litros) até 2022. Por isso, acredito que será difícil esse pleito passar", afirma.

De acordo com Tomkiw, se a revisão do mandato fosse feita, o governo americano poderia colocar a perder toda a estrutura que foi – e está – sendo criada para atender a oferta de etanol.

"Nos EUA, primeiro criaram a oferta e depois veio a adaptação dos carros e de toda a estrutura. No Brasil, aconteceu o contrário, e deu no que deu: usinas com problemas financeiros e o Brasil tendo que importar etanol dos EUA, como aconteceu no passado recente", lembra. Segundo ele, qualquer alteração no nível de mistura também se torna desnecessária na medida em que uma melhora na produção de milho no ano que vem já resolveria o problema. "Nada que um ciclo produtivo não ajude".

Por ora, algumas usinas americanas preferiram pisar no freio, à espera da volta de margens menos negativas. A Nedak Ethanol LLC interrompeu os trabalhos em sua unidade localizada na cidade de Atkinson, no Estado de Nebraska, que ofertava cerca de 44 milhões de galões (166,5 milhões de litros) anuais.

Também a Valero Energy Corp. decidiu reduzir o processamento em três de suas usinas no país, que produziam juntas 310 milhões de galões por ano (1,173 bilhão de litros). Como resultado dessa desaceleração, o USDA previu, na semana passada, que a produção de etanol nos EUA sofrerá queda de 3,3% este ano.

Há outro ponto: a redução no mandato não traria uma diminuição na demanda por etanol. As refinadoras precisam do produto para elevar os níveis de oxigênio requeridos pela EPA no combustível veicular. Depois que o MTBE (éter metiltercbutila) foi banido, o etanol mostrou-se como a única alternativa disponível, em termos de volume.

Em nota reproduzida pela agência Bloomberg, na semana passada, analistas do Morgan Stanley reiteram que não acreditam que nenhuma mudança na política de mistura vai produzir impactos sobre a demanda por etanol, nem nos preços do milho. "Economia, não política, determina o uso de etanol", concluíram.

Nesse contexto, movimentos ambientalistas que veem a seca nos EUA como reflexo das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global e rechaçam a ideia de retrocesso na política do etanol, o que privilegiaria combustíveis fósseis, agradecem.

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Fonte: Valor | Por Mariana Caetano | De São Paulo

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